Lula e Flávio Bolsonaro chegam à disputa presidencial com propostas diferentes para economia e Estado, mas ambos enfrentarão a mesma realidade: Congresso, orçamento e capacidade de execução
Brasília — 29 de setembro de 2026
Nenhuma das duas principais candidaturas chega ao Planalto em 2027 com passe livre para executar suas promessas.
O teste de cada projeto estará exposto a restrições diferentes. Para Lula, o desafio central será demonstrar como a continuidade das políticas públicas poderá ser sustentada diante da pressão fiscal. Para Flávio Bolsonaro, o desafio será transformar uma proposta de ajuste mais rápido e de reorganização do Estado em medidas aprovadas e efetivamente executadas.
Para os dois, existe uma variável que não desaparece depois da eleição: o Congresso.
Lula: o desafio da continuidade
O projeto de continuidade associado a Lula terá de responder a uma questão fiscal que não pode ser tratada apenas como disputa de narrativa.
A dívida bruta do governo geral chegou a 82,5% do PIB em julho, enquanto o déficit nominal acumulado em 12 meses alcançou 9,34% do PIB, segundo o Banco Central. A dívida bruta aumentou 3,9 pontos percentuais do PIB no ano até julho, influenciada principalmente pelos juros nominais e pelas emissões líquidas de dívida.
Em setembro, o governo anunciou R$ 16,1 bilhões em contenção de despesas para 2026. O valor corresponde a R$ 2,4 bilhões em bloqueios e R$ 13,6 bilhões em contingenciamento.
Esses números não permitem falar, por si só, em colapso fiscal.
Permitem identificar uma restrição concreta.
A pergunta para uma eventual continuidade do atual projeto é objetiva:
como preservar e ampliar políticas públicas sem transformar o crescimento das despesas em pressão adicional sobre dívida, juros e inflação?
A resposta não passa apenas por aumentar receitas ou anunciar contenções pontuais.
Envolve escolhas sobre despesas, prioridades, execução e capacidade de sustentar uma trajetória fiscal considerada crível.
O teste, portanto, não é simplesmente gastar mais ou gastar menos.
É demonstrar como a conta será sustentada ao longo do tempo.
Flávio Bolsonaro: o teste da execução
No campo de Flávio Bolsonaro, a questão fiscal apresentada pela campanha é diferente.
A proposta econômica associada à candidatura trabalha com um ajuste fiscal de aproximadamente 1,5% do PIB nos primeiros 18 meses, acompanhado de mudanças na estrutura do Estado, reforma administrativa, redução da burocracia e medidas destinadas a conter o crescimento da dívida.
A Reuters registrou que as duas principais candidaturas apresentam metas fiscais sem detalhar integralmente algumas das escolhas politicamente mais difíceis para alcançá-las.
O teste, portanto, não está apenas na meta.
Está na capacidade de transformar a meta em lei e a lei em execução.
Onde exatamente estarão os cortes?
Quais despesas seriam reduzidas?
Quais estruturas poderiam ser reorganizadas?
Quais benefícios seriam preservados?
Quais medidas dependeriam de lei ordinária e quais exigiriam mudanças constitucionais?
E há uma pergunta política inevitável:
com quem esse programa seria aprovado?
Uma meta fiscal pode ser matematicamente definida.
Transformá-la em orçamento, legislação e execução administrativa é outra etapa.
É nesse intervalo entre a promessa e a execução que o projeto será testado.
O ponto em comum: Congresso e orçamento
É aqui que a eleição presidencial encontra uma realidade que nenhum programa de governo consegue ignorar.
O Congresso ampliou sua participação na definição do orçamento e na destinação de recursos públicos. Para 2027, as emendas parlamentares poderão chegar a R$ 57,5 bilhões, segundo estimativa divulgada pela Câmara dos Deputados.
Isso não significa que o Legislativo tenha substituído o Executivo na condução da política econômica.
Significa que qualquer presidente precisará negociar.
Um governo de continuidade precisará construir maioria para preservar e ampliar políticas.
Um governo que proponha mudanças mais profundas precisará construir maioria para alterar estruturas, aprovar reformas e sustentar as medidas prometidas.
É aí que a campanha termina e começa o governo.
Porque uma promessa presidencial pode ser anunciada sozinha.
Medida de governo, não.
A polarização e o peso da rejeição
A divisão do eleitorado acrescenta outra camada à equação.
Pesquisa Datafolha divulgada em 28 de setembro mostrou que 45% dos eleitores afirmam não votar de jeito nenhum em Lula e 45% rejeitam Flávio Bolsonaro.
O mesmo levantamento apontou que 80% dos eleitores que já têm uma opção de voto estão totalmente decididos.
Os números descrevem um eleitorado fortemente concentrado nos dois principais polos da disputa e com elevado grau de cristalização entre aqueles que já escolheram um candidato.
Rejeição elevada não significa, por si só, ausência de legitimidade institucional.
O presidente eleito terá a legitimidade conferida pelo voto.
Mas um eleitorado profundamente dividido pode elevar o custo político de decisões capazes de contrariar interesses organizados ou setores da própria sociedade.
O próximo presidente não receberá um cheque em branco.
Receberá um mandato.
E terá de transformar esse mandato em maioria política, orçamento, legislação e políticas públicas.
Onde cada projeto será testado
A pergunta jornalística não é qual projeto é mais atraente.
Essa decisão pertence ao eleitor.
A pergunta é outra:
onde cada projeto será testado quando a promessa encontrar a conta?
No caso de Lula, o principal ponto de pressão estará na capacidade de conciliar a continuidade e eventual ampliação de políticas públicas com uma trajetória fiscal sustentável.
No caso de Flávio Bolsonaro, o teste estará na capacidade de transformar a proposta de ajuste e reorganização do Estado em medidas concretas, aprovadas e executadas.
Para os dois, existe ainda uma condição comum:
governar exige Congresso, orçamento e capacidade administrativa.
É por isso que a eleição presidencial não encerra a disputa.
Ela muda a natureza da disputa.
A urna escolhe o presidente.
Depois dela começam as negociações, as votações, os vetos, as escolhas orçamentárias e a execução das políticas.
É nesse momento que a promessa encontra a conta.
E é aí que começa a verdadeira prova de governo.
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Onde está a prova?
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