Quando a universidade deixa de questionar?

A universidade deveria ser um lugar para incomodar certezas.

Seu papel nunca foi oferecer respostas prontas nem exigir concordância. É o contrário: perguntar, investigar, confrontar e colocar até as próprias convicções sob suspeita.

Por isso existe uma pergunta que precisa ser feita — inclusive dentro dela mesma:

quando uma posição previamente assumida passa a definir quais perguntas podem ser feitas, quais respostas são legítimas e quais argumentos merecem ser ouvidos, ainda estamos falando de pesquisa ou já estamos falando de defesa de uma causa?

Ter posição política, social ou ideológica não é o problema. Professores, pesquisadores e estudantes têm esse direito.

O problema começa quando a posição deixa de ser objeto de escrutínio e se transforma em filtro. Quando o contraditório passa a ser tratado não como parte do método, mas como obstáculo, atraso ou má-fé.

Nesse ponto, o ambiente acadêmico corre o risco de perder exatamente aquilo que deveria protegê-lo: a liberdade de questionar.

E a consequência ultrapassa os muros da universidade.

Quem está do lado de fora raramente acompanha métodos, referências ou debates internos. Enxerga resultados, documentos e conclusões.

Se a percepção pública for a de que certas conclusões estavam prontas antes da investigação, a dúvida deixa de ser sobre aquela pesquisa específica. Passa a atingir a própria instituição.

E confiança, uma vez perdida, não se recupera com autoridade institucional. Recupera-se com transparência, método e disposição para enfrentar perguntas difíceis.

Uma universidade não precisa ser neutra diante de todos os problemas do mundo. Precisa ser rigorosa diante das próprias afirmações.

Pode defender direitos, estudar desigualdades, investigar relações de poder e produzir conhecimento crítico. Mas precisa também permitir que suas conclusões sejam questionadas sem que o questionamento seja automaticamente desqualificado.

Contraditório não é inimigo da ciência. É parte do mecanismo que permite separar convicção de evidência.

Uma universidade que não tolera perguntas difíceis pode produzir consensos.

Não necessariamente produz conhecimento.

Uma sociedade democrática não precisa de instituições que digam ao cidadão em que acreditar.

Precisa de instituições capazes de mostrar como chegaram às suas conclusões — e suficientemente seguras para ouvir a pergunta mais básica:

Onde está a prova?

Essa é uma das bases da independência acadêmica.

Não estar livre de ideias.

Estar livre para questioná-las.

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  • Inês Theodoro

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