Alerta Climático: o Brasil diante da ameaça de um Super El Niño

Projeções indicam um El Niño potencialmente excepcional entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027, com riscos de seca, calor extremo, incêndios, chuvas intensas e impactos sobre agricultura, energia e abastecimento

O sinal de alerta está aceso.

As águas do Pacífico Equatorial estão se aquecendo e as projeções climáticas apontam para um El Niño potencialmente muito forte entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027.

Segundo projeções da NOAA, existe mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte, enquanto a estimativa de 69% para níveis historicamente elevados coloca o episódio entre os cenários que exigem atenção especial.

No Brasil, órgãos como INPE, INMET, CEMADEN, ANA, CENSIPAM, SGB e SEDEC acompanham a evolução do fenômeno e seus possíveis impactos.

O problema é que o El Niño não produz necessariamente o mesmo efeito em todo o território. Ele pode provocar seca e calor intenso em algumas regiões e excesso de chuva em outras, criando uma espécie de choque climático assimétrico.

Na Amazônia e em partes do Norte, a redução das chuvas pode provocar queda no nível dos rios, dificultar o transporte fluvial e comprometer o abastecimento de comunidades que dependem das hidrovias. A combinação de calor, baixa umidade e vegetação seca também pode aumentar o risco de incêndios florestais e piorar a qualidade do ar.

No Sul, o cenário pode ser inverso. O aumento das chuvas pode favorecer tempestades, alagamentos, enchentes e deslizamentos, além de provocar prejuízos à agricultura. Em determinadas situações, o excesso de água pode ser tão prejudicial quanto a falta dela.

No Centro-Oeste, temperaturas elevadas e irregularidade das chuvas podem aumentar o estresse hídrico e térmico sobre lavouras, pastagens e criação de animais. Para o agronegócio, não importa apenas quanto chove, mas quando a chuva acontece. Uma mudança na janela climática pode afetar plantio, colheita e produtividade.

E a conta pode chegar ao consumidor.

Quebras de safra, dificuldades de transporte, rios em níveis baixos e estradas afetadas por eventos extremos podem aumentar custos e pressionar os preços dos alimentos.

As cidades também estarão expostas. Ondas de calor podem elevar o consumo de eletricidade, enquanto tempestades intensas podem sobrecarregar sistemas de drenagem e aumentar o risco de alagamentos e deslizamentos. Em regiões afetadas por queimadas, a fumaça pode agravar problemas respiratórios e aumentar a pressão sobre os serviços de saúde.

A energia é outro ponto de atenção. Períodos de estiagem podem pressionar a disponibilidade hídrica em determinados sistemas, justamente quando temperaturas elevadas aumentam a demanda por eletricidade. Isso não significa que haverá necessariamente uma crise energética ou apagões, mas aumenta a importância do planejamento e do monitoramento dos reservatórios.

O verdadeiro risco está na combinação

O maior perigo de um Super El Niño não necessariamente será um único evento extremo.

O problema pode estar na ocorrência simultânea de diferentes crises: rios baixos na Amazônia, incêndios florestais, calor intenso no Centro-Oeste, chuvas severas no Sul, prejuízos agrícolas, pressão sobre a energia e dificuldades para cidades e sistemas de saúde.

Nenhum desses fatores, isoladamente, precisa provocar uma crise nacional.

Mas vários deles acontecendo ao mesmo tempo podem produzir um efeito em cadeia.

É importante também evitar o alarmismo. Super El Niño não significa apocalipse, nem permite afirmar que todos esses eventos necessariamente acontecerão. O comportamento do clima depende de diversos fatores e as projeções ainda serão atualizadas conforme o fenômeno evoluir.

Mas o alerta existe.

O Brasil pode não conseguir impedir o El Niño, mas pode reduzir seus danos.

Reforçar brigadas contra incêndios, monitorar rios e reservatórios, atualizar mapas de risco, preparar sistemas de alerta, orientar produtores rurais e fortalecer a Defesa Civil são medidas que podem fazer diferença quando os extremos chegarem.

Porque o verdadeiro problema não é apenas o tamanho do fenômeno climático.

É o tamanho da nossa preparação para enfrentá-lo.

O Pacífico está dando o sinal de alerta. A pergunta agora é se o Brasil vai se preparar antes que os extremos aconteçam — ou depois que a conta chegar.

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Inês Theodoro

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