A eleição começou: Lula e Flávio concentram a disputa, mas o verdadeiro jogo acontece nos estados

Pesquisas mostram Lula à frente e Flávio Bolsonaro competitivo no segundo turno; enquanto isso, partidos negociam palanques, o centro mantém suas opções abertas e a disputa digital chega aos tribunais

A eleição presidencial de 2026 começou oficialmente, mas uma parte decisiva da disputa ainda acontece longe dos palanques.

Enquanto o debate público se concentra principalmente em Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, partidos e lideranças regionais trabalham para construir alianças, organizar palanques e ampliar a presença das candidaturas nos estados.

As pesquisas mais recentes mostram uma disputa concentrada no topo, mas ainda aberta.

O levantamento BTG/Nexus divulgado em 17 de agosto aponta Lula com 41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 36% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, a distância diminui para 47% a 44%, respectivamente. Com margem de erro de dois pontos percentuais, o cenário configura empate técnico.

A pesquisa Quaest, divulgada em 14 de agosto, apresentou números diferentes, mas confirmou a mesma tendência de uma disputa apertada entre os dois. Lula aparece com 38% contra 31% de Flávio no primeiro turno e, em um eventual segundo turno, com 43% contra 40%.

A fotografia das pesquisas, portanto, mostra Lula na liderança nacional, mas também revela que Flávio conseguiu reduzir a distância quando o cenário passa para uma disputa direta.

O centro mantém as portas abertas

Um dos movimentos mais importantes da atual fase eleitoral acontece justamente fora da disputa direta entre os dois principais candidatos.

A federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas, adotou neutralidade na disputa presidencial.

A decisão permite que suas estruturas regionais tenham maior liberdade para construir alianças nos estados.

Na prática, isso significa que a posição de uma legenda em Brasília não necessariamente será reproduzida da mesma maneira em todo o país.

É possível que diferentes grupos regionais construam acordos distintos conforme a realidade política local.

Essa característica torna governadores, candidatos ao Senado, deputados, prefeitos e dirigentes partidários peças importantes na montagem dos palanques presidenciais.

A eleição muda de acordo com o estado

Os números regionais ajudam a explicar por que a disputa nacional não pode ser analisada apenas pelas pesquisas realizadas em todo o país.

No Paraná, por exemplo, pesquisa RealTime Big Data divulgada em 18 de agosto mostra Flávio Bolsonaro com 52% contra 35% de Lula em uma simulação de segundo turno. No primeiro turno, Flávio aparece com 44% contra 31% de Lula.

O resultado mostra a existência de diferenças expressivas entre os eleitorados estaduais.

É justamente nesse espaço que os palanques regionais ganham importância.

Uma candidatura pode estar em vantagem no cenário nacional e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades em determinados estados. Da mesma forma, um candidato pode apresentar desempenho muito superior à média nacional em regiões específicas.

Por isso, a construção de alianças estaduais pode ser decisiva para transformar intenção de voto em estrutura eleitoral.

Flávio busca consolidar o campo da direita

A disputa também passa pelo próprio campo político de Flávio Bolsonaro.

Além de enfrentar Lula, o candidato do PL precisa disputar espaço com nomes como Ronaldo Caiado e Romeu Zema.

Na pesquisa BTG/Nexus, Caiado aparece com 5%, enquanto Zema registra 4% no primeiro turno. Renan Santos também aparece com 4%.

Embora estejam distantes dos dois primeiros colocados, esses candidatos representam uma variável importante para a configuração do primeiro turno.

Quanto maior a fragmentação do eleitorado de direita e centro-direita, maior a necessidade de construção de alianças e concentração de votos.

Por isso, os próximos movimentos dentro desse campo político serão importantes para determinar o tamanho da vantagem — ou da desvantagem — de Flávio diante de Lula.

Lula também precisa construir sua rede política

Para Lula, a questão não é apenas preservar a liderança nas pesquisas.

Uma eventual vitória presidencial dependeria também da construção de uma base política capaz de sustentar um novo governo.

Isso coloca os partidos de centro e centro-direita em posição estratégica.

As alianças estaduais, as candidaturas ao Senado e à Câmara dos Deputados e a relação com governadores podem influenciar diretamente a capacidade de articulação de um eventual governo eleito.

Em outras palavras, a eleição presidencial e a eleição parlamentar caminham juntas.

O candidato que conquistar a Presidência precisará lidar, a partir de janeiro, com um Congresso que será definido nas mesmas urnas.

A guerra eleitoral também chegou à Justiça

Outro elemento que ganhou força em 2026 é a judicialização da disputa.

Até 15 de agosto, foram protocoladas 202 representações na Justiça Eleitoral, mais que o dobro das 84 registradas no mesmo período de 2022. O crescimento foi de aproximadamente 140%. Mais de 80% das ações partiram das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro.

O ambiente digital está no centro de boa parte dessa disputa.

Inteligência artificial, vídeos manipulados, conteúdos fora de contexto e desinformação ampliaram a velocidade com que uma informação — verdadeira ou falsa — pode alcançar milhões de pessoas.

A campanha eleitoral de 2026, portanto, não está sendo disputada somente em comícios, entrevistas e propaganda.

Ela também acontece nas redes sociais e nos tribunais.

O que os bastidores realmente estão tentando definir

Para o eleitor, a pergunta mais comum é:

Quem está na frente?

Nos bastidores, a pergunta é diferente:

Quem está construindo as condições para vencer?

Uma candidatura presidencial precisa de votos, mas também precisa de presença nos estados, alianças, estrutura partidária, candidatos competitivos ao Congresso e capacidade de comunicação.

É por isso que cada acordo regional pode ganhar importância.

A eleição será decidida pelo voto nacionalmente contabilizado, mas a estratégia para chegar a esse resultado está sendo construída em diferentes realidades estaduais.

A disputa ainda está aberta

Os dados disponíveis até agora não permitem considerar a eleição definida.

Lula aparece na liderança dos principais levantamentos nacionais recentes, enquanto Flávio Bolsonaro se consolidou como seu principal adversário e aparece tecnicamente empatado com o presidente em algumas simulações de segundo turno.

Mas pesquisas são fotografias de determinado momento.

Até outubro, novos fatos políticos, alianças, debates, situação econômica, desempenho dos candidatos e mudanças no comportamento do eleitor poderão alterar o cenário.

O que já está claro, entretanto, é que a eleição de 2026 não será decidida apenas pelos números das pesquisas.

A polarização domina os palanques nacionais.

Mas o jogo eleitoral está sendo construído estado por estado.

E é justamente nos bastidores — nas alianças, nos palanques regionais, na disputa pelo centro e na guerra digital — que muitas das peças da eleição presidencial começam a encontrar seus lugares.

.Eleições 2026

Inês Theodoro

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