Tocantins: o agronegócio cresce, mas gargalos logísticos e concentração econômica desafiam a nova fronteira agrícola

Enquanto exportações batem recordes e atraem investimentos, produtores, especialistas e empresários apontam que infraestrutura e industrialização ainda limitam o potencial do estado.

O agronegócio transformou o Tocantins em uma das mais promissoras fronteiras agrícolas do Brasil. A paisagem mudou, os investimentos aumentaram e municípios antes pouco conhecidos passaram a figurar entre os maiores exportadores do estado. Os números impressionam, mas uma investigação sobre a realidade do setor revela que o crescimento esbarra em problemas estruturais que podem limitar o próximo ciclo de desenvolvimento.

O estado registra expansão consistente nas exportações, impulsionadas principalmente pela soja, milho, carne bovina e bovinos vivos. No primeiro bimestre de 2026, as vendas externas cresceram em relação ao mesmo período do ano anterior, com o agronegócio respondendo pela maior parte da pauta exportadora estadual. Pela primeira vez em anos recentes, a carne bovina superou momentaneamente o complexo soja como principal produto exportado, evidenciando uma mudança conjuntural no perfil das exportações.

Mas a pergunta feita por economistas, produtores e representantes do setor é outra:

O Tocantins está exportando riqueza ou apenas matéria-prima?

O dinheiro sai da fazenda, mas nem sempre permanece no estado

Ao percorrer municípios produtores, percebe-se um cenário de prosperidade no campo. Máquinas modernas, silos, pivôs de irrigação e propriedades altamente mecanizadas demonstram a evolução tecnológica da agricultura.

Entretanto, especialistas observam que boa parte da riqueza gerada ainda deixa o estado sem passar por processos industriais.

Grande parcela da soja continua sendo comercializada como grão. O milho segue caminho semelhante. Isso significa que o maior valor agregado — obtido na produção de óleo, farelo, biodiesel, proteínas vegetais e outros derivados — muitas vezes é capturado por outros estados que concentram agroindústrias.

Para economistas, esse é um dos principais desafios para transformar crescimento agrícola em desenvolvimento econômico duradouro.

A logística continua sendo o principal gargalo

Outro ponto recorrente nas entrevistas com representantes do setor é a logística.

Embora o Tocantins ocupe posição estratégica no corredor do Matopiba e seja cortado pela Ferrovia Norte-Sul, produtores ainda relatam dificuldades relacionadas ao transporte e à armazenagem da produção.

Em períodos de safra, o aumento do fluxo de caminhões pressiona rodovias e eleva custos operacionais. Estudos acadêmicos também apontam que a capacidade de armazenamento não acompanha, em todos os casos, o ritmo de crescimento da produção, obrigando parte dos produtores a antecipar vendas ou transportar grãos para outras regiões.

Segundo pesquisadores, reduzir esses gargalos representa uma das formas mais eficazes de aumentar a competitividade do agronegócio tocantinense.

Exportações concentradas em poucos municípios

Os dados de comércio exterior também revelam outro aspecto pouco discutido.

Embora o agronegócio esteja presente em praticamente todas as regiões do estado, a maior parte das exportações concentra-se em poucos municípios, como Porto Nacional, Araguaína, Gurupi e Paraíso do Tocantins. Porto Nacional, por exemplo, voltou a superar US$ 100 milhões em exportações apenas no primeiro trimestre de 2026, mantendo-se entre os principais polos exportadores do estado.

Essa concentração levanta um debate sobre a necessidade de ampliar investimentos em infraestrutura e cadeias produtivas em outras regiões, reduzindo desigualdades internas e diversificando a base econômica.

O peso da China

Outro fator estratégico é a dependência do mercado internacional.

A China permanece como principal compradora dos produtos do agronegócio tocantinense, absorvendo parcela significativa das exportações estaduais. Essa relação fortalece o comércio exterior, mas também aumenta a exposição do estado às oscilações da demanda global, aos preços internacionais das commodities e às tensões geopolíticas.

Para analistas, diversificar mercados e ampliar a produção de itens com maior valor agregado pode reduzir essa vulnerabilidade ao longo dos próximos anos.

A tecnologia acelera — e muda o perfil do produtor

O avanço tecnológico também redefine o campo.

Agricultura de precisão, monitoramento por satélite, drones, inteligência artificial, sensores climáticos e softwares de gestão já fazem parte da rotina de muitas propriedades.

O resultado é uma agricultura mais eficiente, com melhor controle de custos e aumento de produtividade.

Ao mesmo tempo, cresce a demanda por profissionais qualificados capazes de operar essas tecnologias, criando um novo perfil para o trabalhador rural.

O próximo desafio: industrializar

A análise dos indicadores mostra que o Tocantins já venceu parte da corrida pela produção.

Agora, o desafio parece ser outro.

Industrializar a matéria-prima, ampliar a armazenagem, fortalecer a logística, atrair indústrias de processamento e diversificar mercados podem representar a próxima etapa do desenvolvimento econômico estadual.

Os próprios dados da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins mostram que o agro responde por mais de 90% das exportações do estado, evidenciando sua enorme importância econômica, mas também a elevada dependência da economia tocantinense em relação ao setor.

Mais que produzir, é preciso transformar riqueza

O Tocantins consolidou sua posição como uma das principais fronteiras agrícolas do país. A produtividade cresce, as exportações avançam e os investimentos continuam chegando.

Mas a investigação mostra que o verdadeiro salto econômico dependerá menos do aumento da área plantada e mais da capacidade de transformar produção em indústria, inovação, empregos qualificados e desenvolvimento regional.

A próxima grande safra do estado talvez não seja apenas de soja ou milho. Pode ser a da agregação de valor — um passo decisivo para que a riqueza produzida no campo permaneça no Tocantins e impulsione sua economia de forma ainda mais sustentável.

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Inês Theodoro

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