Para Que Servem os Debates? Quando os Favoritos Fogem do Confronto, Quem Perde é a Democracia

A possibilidade de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participar dos debates do primeiro turno das eleições de 2026 reacendeu uma discussão que vai muito além da estratégia eleitoral. Afinal, qual é o sentido de promover debates quando os candidatos mais competitivos concluem que têm mais a perder do que a ganhar ao participar?

Nos bastidores, a lógica é conhecida. Quem lidera as pesquisas procura reduzir riscos. Cada debate representa uma oportunidade para adversários concentrarem ataques, explorarem deslizes ou criarem momentos capazes de dominar as redes sociais e o noticiário. Na matemática das campanhas, preservar uma vantagem pode ser mais eficiente do que tentar ampliá-la.

Sob a ótica do marketing político, a estratégia faz sentido.

Sob a ótica da democracia, a resposta é bem menos simples.

O debate pertence ao eleitor, não ao candidato

Debates não existem para atender aos interesses de campanhas eleitorais. Eles existem para atender ao interesse público.

São um dos poucos momentos em que candidatos precisam responder, ao vivo e sem edição, perguntas sobre economia, saúde, segurança pública, educação, política externa, responsabilidade fiscal e tantos outros temas que influenciam diretamente a vida da população.

Mais do que convencer eleitores, os debates cumprem uma função institucional essencial: submetem quem pretende governar ao escrutínio público. O contraditório, as perguntas inesperadas e a necessidade de responder sem roteiros previamente controlados fazem parte do processo democrático.

Quando um candidato competitivo decide não comparecer, a campanha pode ganhar em proteção, mas o eleitor perde uma oportunidade importante de avaliar preparo, conhecimento, capacidade de argumentação e equilíbrio diante da pressão.

Uma estratégia antiga em um cenário novo

A ausência de favoritos em debates não é novidade na política brasileira.

Em 1998, Fernando Henrique Cardoso, então líder nas pesquisas, optou por não participar dos debates do primeiro turno. O mesmo ocorreu em 2006, quando Luiz Inácio Lula da Silva também deixou de comparecer aos confrontos televisivos antes da votação.

A lógica permanece praticamente a mesma: quem lidera evita riscos desnecessários.

O que mudou foi o ambiente em que as campanhas acontecem.

Hoje, redes sociais, transmissões ao vivo, vídeos curtos e conteúdos produzidos pelas próprias equipes permitem que candidatos falem diretamente aos eleitores sem enfrentar perguntas incômodas ou o contraditório. A comunicação tornou-se mais controlada e segmentada, reduzindo a dependência dos grandes debates televisivos.

Quando o formato também passa a ser parte do problema

Seria injusto atribuir toda a responsabilidade aos candidatos.

Os próprios debates mudaram.

Em muitos casos, a multiplicidade de participantes, o tempo reduzido para respostas e a busca constante por momentos virais acabaram transformando encontros que deveriam aprofundar propostas em arenas voltadas para frases de efeito e confrontos rápidos.

O espetáculo frequentemente ocupa o espaço da argumentação.

O incentivo para participar diminui quando o formato favorece cortes para redes sociais em vez de discussões qualificadas sobre políticas públicas.

Ainda assim, essa limitação não elimina a importância dos debates. Pelo contrário: reforça a necessidade de repensar seus modelos para que voltem a cumprir sua função democrática.

O marketing venceu o contraditório?

As campanhas contemporâneas são guiadas por dados, pesquisas e algoritmos.

Os estrategistas avaliam riscos em tempo real.

Se o candidato participa:

  • pode cometer erros;
  • torna-se alvo simultâneo dos adversários;
  • oferece material para campanhas negativas.

Se não participa:

  • preserva sua imagem;
  • mantém o controle da narrativa;
  • comunica-se diretamente com seus apoiadores por canais próprios.

Do ponto de vista eleitoral, a decisão parece racional.

Mas existe uma consequência que vai além da disputa entre candidatos.

Quando o cálculo estratégico substitui o confronto de ideias, o debate deixa de ser visto como um instrumento da democracia e passa a ser tratado apenas como um risco de comunicação.

É nesse momento que o marketing começa a ocupar um espaço que deveria pertencer ao debate público.

O custo para a democracia

Quem perde não são apenas as emissoras que organizam os debates.

Também não são os partidos políticos ou os marqueteiros.

Quem perde é o eleitor.

Sem o confronto direto entre candidatos, torna-se mais difícil comparar propostas, identificar inconsistências, avaliar conhecimento técnico e observar como cada postulante reage sob pressão.

A escolha passa a depender cada vez mais de campanhas publicitárias, conteúdos produzidos pelas próprias equipes, vídeos editados e algoritmos das plataformas digitais.

O cidadão continua votando.

Mas vota com menos oportunidades de confrontar ideias e cobrar respostas.

A pergunta que 2026 impõe

A possível ausência de Lula dos debates do primeiro turno não deve ser analisada apenas como uma decisão individual ou partidária. Trata-se de um sintoma de um modelo de campanha que passou a premiar a comunicação controlada e a reduzir os incentivos para o confronto público.

Isso leva a uma reflexão que ultrapassa esta eleição e alcança o próprio funcionamento da democracia brasileira.

Se os candidatos mais competitivos concluem que comparecer aos debates representa apenas riscos eleitorais, para que haverá debates?

Talvez a questão mais importante não seja apenas convencer os favoritos a participar.

Talvez seja reconstruir formatos capazes de tornar os debates novamente relevantes para candidatos, para a imprensa e, principalmente, para os eleitores.

Porque democracias não dependem apenas do direito de votar.

Dependem também do direito de comparar projetos, confrontar ideias, ouvir respostas difíceis e exigir transparência daqueles que pretendem governar.

Se esse espaço perder sua relevância, continuaremos realizando eleições. Mas correremos o risco de transformar a disputa pelo comando do país em uma competição de estratégias de comunicação, e não de projetos para o futuro do Brasil.

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Inês Theodoro

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