Quando o Estado manda calar, a desconfiança fala mais alto

A pandemia acabou, mas o autoritarismo sanitário e o silêncio institucional continuam cobrando seu preço


Há algo profundamente errado quando uma sociedade é orientada a “confiar na ciência”, mas proibida de questionar decisões tomadas em seu nome. A pandemia de Covid-19 passou, os postos de vacinação foram desmontados, as estatísticas esfriaram — mas a ferida aberta entre o Estado e parte da população segue exposta, pulsando desconfiança.

E essa desconfiança não nasceu do nada.


Questionar virou crime moral

Durante a crise sanitária, criou-se um ambiente em que qualquer dúvida era tratada como heresia. Médicos que divergiam foram ridicularizados. Pacientes com queixas pós-vacinação foram ignorados. Jornalistas que perguntavam demais foram enquadrados. A ciência, que deveria ser método, virou slogan político.

O problema não foi defender vacinas. O problema foi blindar decisões públicas contra qualquer escrutínio, como se ciência fosse decreto e não processo.

Quando o Estado decide pelo cidadão, mas se recusa a ouvi-lo depois, a conta chega — sempre chega.


Eventos adversos existem. Fingir que não, foi um erro histórico

É desonesto fingir surpresa diante da revolta de pessoas que relatam problemas de saúde após a vacinação. Eventos adversos existem em qualquer campanha de imunização em massa. Isso é fato médico, não opinião ideológica.

O erro grave foi outro: negar o debate, minimizar relatos e abandonar quem se sentiu prejudicado. Ao invés de acolhimento, houve desqualificação. Ao invés de investigação ampla e transparente, silêncio. Ao invés de política pública de compensação, empurra-se o problema para a Justiça — individualizando uma responsabilidade que foi coletiva.

O Estado obrigou, incentivou, pressionou. Mas quando algo deu errado para alguns, lavou as mãos.


Obrigatoriedade sem responsabilização é abuso

A obrigatoriedade vacinal — direta ou indireta — foi justificada como exceção em nome da emergência. O problema é que a exceção virou regra, e a responsabilização nunca veio.

Se o Estado pode impor uma política sanitária, ele também deveria assumir os riscos residuais dessa política. Isso não enfraquece a saúde pública. Ao contrário: fortalece a confiança social.

Sem isso, a mensagem transmitida é clara e brutal:

“Você obedece. Se algo der errado, o problema é seu.”


O Judiciário falou, mas não escutou

No Brasil, grande parte das decisões mais sensíveis da pandemia foi deslocada para o Judiciário. O Supremo Tribunal Federal decidiu, arbitrou e validou medidas excepcionais. Juridicamente, pode-se discutir fundamentos. Socialmente, o resultado é inegável: um sentimento difuso de imposição sem diálogo.

Tribunais não substituem consenso social. E toga não cura fratura de confiança.


Teorias extremas são sintoma, não causa

É confortável rotular toda crítica como “teoria da conspiração”. Difícil é admitir que a radicalização cresce quando o debate é interditado. Onde não há transparência, prosperam versões distorcidas. Onde não há escuta, grita-se.

Isso não torna falsas narrativas verdadeiras — mas explica por que elas encontram público.

Quem trata cidadãos como incapazes de compreender complexidade acaba empurrando-os para explicações simplistas e perigosas.


O verdadeiro legado da pandemia

O maior legado da pandemia não está apenas nos mortos, nos impactos econômicos ou nas campanhas de vacinação. Está na erosão da confiança.

Confiança na ciência, quando ela é usada como escudo político.
Confiança no Estado, quando ele manda mais do que explica.
Confiança na Justiça, quando decide sem diálogo social.

Reconstruir isso exige mais do que campanhas publicitárias ou slogans bem-intencionados. Exige coragem institucional para admitir excessos, rever políticas e — sobretudo — tratar cidadãos como adultos.

Sem isso, o silêncio dos postos vazios continuará falando mais alto do que qualquer discurso oficial.

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  • Inês Theodoro

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