Brasileiros passam mais tempo da vida doentes: avanço da medicina não impede crescimento dos anos vividos com doenças

O brasileiro está vivendo mais, mas nem sempre vivendo melhor. Um dos principais desafios da saúde pública no século XXI já não é apenas aumentar a expectativa de vida, mas garantir que esses anos adicionais sejam vividos com qualidade. Dados de estudos internacionais e de instituições de saúde mostram que os brasileiros estão passando uma parcela cada vez maior da vida convivendo com doenças crônicas, limitações físicas e transtornos mentais.

A chamada expectativa de vida saudável — indicador que mede quantos anos uma pessoa vive sem incapacidades importantes — cresce em ritmo inferior ao da expectativa de vida total. Em outras palavras, a medicina conseguiu prolongar a vida, mas ainda enfrenta dificuldades para evitar que milhões de pessoas envelheçam carregando doenças que comprometem sua autonomia.

O paradoxo da longevidade

Nas últimas décadas, o Brasil registrou avanços importantes na redução da mortalidade infantil, no controle de doenças infecciosas e no acesso a tratamentos médicos. Entretanto, o perfil epidemiológico do país mudou.

Hoje, as principais causas de perda da qualidade de vida são doenças crônicas como:

  • hipertensão arterial;
  • diabetes;
  • obesidade;
  • doenças cardiovasculares;
  • câncer;
  • doenças respiratórias;
  • doenças osteomusculares;
  • depressão e ansiedade.

Essas enfermidades nem sempre levam à morte rapidamente, mas acompanham o paciente durante décadas, exigindo medicamentos contínuos, consultas frequentes e mudanças profundas no cotidiano.

População envelhece mais rápido

Outro fator decisivo é o envelhecimento da população.

O Brasil está envelhecendo em uma velocidade inédita. Segundo projeções demográficas, nas próximas décadas haverá mais idosos do que crianças no país. Com isso, cresce naturalmente a incidência de doenças degenerativas, como Alzheimer, Parkinson, osteoporose e problemas articulares.

Especialistas alertam que o aumento da longevidade exige uma mudança completa na organização do sistema de saúde, tradicionalmente voltado ao tratamento de doenças agudas e não ao acompanhamento permanente de pacientes crônicos.

Estilo de vida pesa na conta

Embora o envelhecimento seja inevitável, grande parte das doenças que reduzem a qualidade de vida está relacionada ao estilo de vida.

Entre os principais fatores de risco estão:

  • sedentarismo;
  • alimentação rica em ultraprocessados;
  • excesso de açúcar e sódio;
  • tabagismo;
  • consumo excessivo de álcool;
  • privação de sono;
  • estresse crônico.

A obesidade, por exemplo, tornou-se um dos maiores desafios nacionais e está diretamente ligada ao aumento de diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardíacas.

Saúde mental entra na lista

Os transtornos mentais também passaram a representar uma parcela crescente da carga global de doenças.

Depressão, ansiedade e síndrome de burnout afetam milhões de brasileiros, reduzindo produtividade, qualidade de vida e aumentando o risco de outras doenças físicas.

Após a pandemia de Covid-19, especialistas observaram um crescimento significativo dos problemas relacionados à saúde mental, especialmente entre jovens e adultos em idade produtiva.

O custo econômico

Mais pessoas vivendo com doenças significa também maior pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), planos privados e Previdência Social.

O aumento das doenças crônicas eleva gastos com:

  • medicamentos;
  • internações;
  • cirurgias;
  • reabilitação;
  • afastamentos do trabalho;
  • aposentadorias por incapacidade.

Economistas da saúde alertam que investir em prevenção custa muito menos do que tratar complicações anos depois.

Prevenção ainda é o melhor remédio

Especialistas defendem que o país precisa fortalecer políticas públicas voltadas à prevenção.

Entre as medidas consideradas prioritárias estão:

  • incentivo à atividade física;
  • alimentação saudável;
  • vacinação;
  • controle do tabagismo;
  • diagnóstico precoce;
  • acompanhamento da atenção básica;
  • promoção da saúde mental.

Pequenas mudanças adotadas ao longo da vida podem reduzir significativamente o risco de doenças incapacitantes na velhice.

O desafio do século

O grande desafio para o Brasil já não é apenas fazer a população viver mais, mas garantir que esses anos extras sejam vividos com autonomia, independência e qualidade.

Os avanços da medicina aumentaram a expectativa de vida, mas a próxima fronteira será ampliar também a expectativa de vida saudável. Caso contrário, o país poderá assistir a um crescimento contínuo do número de pessoas que vivem mais tempo, porém convivendo por décadas com doenças que limitam sua capacidade de trabalhar, produzir e aproveitar plenamente a vida.


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Inês Theodoro

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