O “segundo salário”: como o custo do plano de saúde começou a sufocar empresas e trabalhadores

Reajustes dos contratos coletivos e aumento das despesas médico-hospitalares transformam um dos principais benefícios corporativos em um desafio financeiro para empresas e famílias

BRASIL — O plano de saúde deixou de ser apenas um dos principais benefícios utilizados pelas empresas para atrair e reter profissionais. O aumento dos custos da assistência médica transformou o benefício em uma despesa estratégica, capaz de pressionar orçamentos empresariais, influenciar decisões de contratação e reduzir a renda disponível dos trabalhadores.

A dimensão do problema aparece principalmente nos contratos coletivos empresariais, que concentram grande parte dos beneficiários da saúde suplementar.

Diferentemente dos planos individuais e familiares, que têm seus reajustes anuais limitados por percentual definido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), os contratos coletivos seguem regras próprias e têm seus reajustes negociados entre contratantes e operadoras, conforme as condições previstas em contrato e a evolução dos custos assistenciais.

Na prática, isso cria uma diferença importante para o consumidor.

O percentual divulgado para os planos individuais não representa necessariamente o aumento enfrentado por uma empresa na renovação de seu contrato coletivo.

E é nesse ponto que começa a pressão sobre o chamado “segundo salário”.


A conta por trás da mensalidade

O aumento dos planos não pode ser explicado por um único fator.

Existe uma combinação de pressões sobre o sistema de saúde suplementar.

Novas tecnologias e tratamentos

A medicina avançou rapidamente nas últimas décadas. Medicamentos de alto custo, terapias especializadas, exames sofisticados e tratamentos personalizados ampliaram as possibilidades de diagnóstico e tratamento — mas também elevaram as despesas assistenciais.

Mudança demográfica

O envelhecimento da população aumenta a demanda por consultas, exames, medicamentos e tratamentos prolongados.

Doenças crônicas também exigem acompanhamento contínuo e representam uma parcela relevante das despesas do sistema.

Maior utilização dos serviços

Quanto mais os beneficiários utilizam consultas, exames, terapias, internações e procedimentos, maior tende a ser a pressão sobre os custos das operadoras.

Os números ajudam a dimensionar essa equação.

No primeiro semestre de 2026, uma amostra de operadoras de médio e grande porte registrou R$ 173,2 bilhões em receitas totais e R$ 126,4 bilhões em despesas assistenciais. A sinistralidade acumulada da amostra chegou a 82,2%.

São números que mostram que a discussão sobre reajustes não pode ser reduzida simplesmente à margem de lucro das empresas.

Existe uma inflação médica real pressionando o sistema.


O dilema das empresas

Para o empresário, a decisão é cada vez mais complexa.

Absorver integralmente o reajuste significa aumentar o custo da folha sem necessariamente elevar a produtividade.

Repassar parte da despesa ao funcionário significa reduzir o valor efetivamente disponível para o trabalhador.

Reduzir a cobertura pode tornar o pacote de benefícios menos competitivo.

E retirar o plano pode dificultar a contratação e a retenção de profissionais.

O benefício, portanto, criou um paradoxo.

É caro manter. Mas também pode ser caro retirar.

Em setores nos quais há disputa intensa por mão de obra qualificada, o plano de saúde pode pesar na decisão de um profissional aceitar ou permanecer em determinado emprego.


Quando a conta chega ao contracheque

O impacto para o trabalhador não acontece apenas quando a mensalidade aumenta.

Ele pode aparecer de diferentes maneiras.

Na renda: por meio de mensalidades e coparticipações maiores.

Nos benefícios: com revisão das condições oferecidas pela empresa.

Nos salários: quando o orçamento destinado à remuneração passa a disputar espaço com outras despesas corporativas.

Nas contratações: quando o custo total de cada funcionário aumenta.

Na rede de atendimento: quando a empresa migra para produtos ou contratos com condições diferentes para tentar controlar despesas.

É uma cadeia de efeitos.

A conta começa na estrutura de custos da saúde, passa pela operadora e pela empresa e pode terminar no orçamento familiar.


O custo invisível de não cuidar

Existe ainda uma parte da equação que raramente aparece nas negociações.

O custo de uma doença não tratada adequadamente.

Um diagnóstico tardio.

Um funcionário afastado.

Uma doença crônica sem acompanhamento.

Uma cirurgia postergada.

Uma equipe sobrecarregada.

Uma queda de produtividade.

Uma substituição emergencial.

Tudo isso também representa custo para as empresas.

É por isso que reduzir o preço do plano não necessariamente significa reduzir o custo total da saúde corporativa.

Uma empresa pode economizar na mensalidade e gastar mais com os efeitos indiretos de uma população de funcionários menos saudável.


A saída pode estar em gastar melhor

O desafio do setor não é simplesmente encontrar maneiras de pagar menos.

É descobrir como produzir melhores resultados de saúde com os recursos disponíveis.

Atenção primária, prevenção, acompanhamento de doenças crônicas, telemedicina quando adequada, gestão de pacientes de maior risco, combate a fraudes e desperdícios e modelos de remuneração baseados em resultados são algumas das estratégias que podem contribuir para essa mudança.

A lógica é simples, mas difícil de executar:

não basta reduzir a despesa; é preciso reduzir o desperdício sem reduzir a qualidade do cuidado.

Essa diferença será decisiva para a sustentabilidade do sistema.


Uma conta que ultrapassou o RH

O plano de saúde já não é apenas uma questão de Recursos Humanos.

Entrou no planejamento financeiro.

Na política salarial.

Na estratégia de contratação.

Na retenção de talentos.

E no orçamento das famílias.

Por isso, o debate sobre saúde suplementar precisa deixar de olhar apenas para o percentual de reajuste.

A questão mais profunda é outra:

quanto custa manter um trabalhador saudável no Brasil?

E existe uma pergunta ainda mais difícil:

quem conseguirá pagar essa conta daqui a cinco ou dez anos?

Se os custos continuarem crescendo sem que o sistema encontre mecanismos para aumentar sua eficiência, o debate poderá mudar de natureza.

Não será mais apenas sobre quanto o plano vai subir.

Será sobre quem ainda conseguirá pagar por ele.

O plano de saúde nasceu como benefício.

Hoje, tornou-se parte importante do custo do trabalho.

O “segundo salário” não aparece no contracheque.

Mas a conta já chegou.

.Home

  • Inês Theodoro

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