Influenciadores, Ideologia e Poder: a Nova Guerra pela Atenção nas Redes


O império dos influenciadores e a geração da influência sem filtro

As redes sociais transformaram cidadãos comuns em celebridades instantâneas.
Com um celular e um discurso convincente, qualquer pessoa pode conquistar multidões — e moldar opiniões.

Mas o que antes parecia apenas entretenimento virou, silenciosamente, uma poderosa ferramenta de manipulação ideológica e política.

Hoje, 83,5% dos brasileiros adultos estão em redes sociais, e 78% afirmam discutir política nesses espaços.
Entre os jovens, o número é ainda mais impressionante: 93% de crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos já usam a internet, e 83% têm perfis ativos em redes sociais.

“O problema não é a influência, e sim a ausência de filtro, formação e responsabilidade de quem a exerce”, observa a pesquisadora digital Helena Nogueira, especialista em cultura da mídia.

Influência das Redes Sociais no Brasil (2025)

Fonte: Cetic.br / Statista / DataReportal / Ipsos (2024–2025)


A indústria da influência política

Por trás de muitos perfis “independentes”, há estruturas de poder bem organizadas.
Partidos, consultorias e campanhas políticas descobriram que investir em influenciadores rende mais engajamento do que propaganda tradicional.

Em 2023, o Brasil destinou cerca de R$ 35 bilhões à publicidade digital — R$ 18,2 bilhões só para redes sociais.
E uma parte expressiva desse valor foi parar em campanhas travestidas de opinião pessoal.

Pesquisas do National Bureau of Economic Research (NBER) apontam que políticos brasileiros priorizam campanhas digitais em cidades com maior conectividade.
É estratégia pura: onde há mais cliques, há mais votos potenciais.

Evolução do Investimento em Mídias Digitais no Brasil (2015–2025)

Fonte: Momentum News & Tech / NBER / Arxiv (2025)


Na China, influência é responsabilidade — no Brasil, é espetáculo

Enquanto o Brasil vive o “vale-tudo digital”, países como a China tratam a influência online com seriedade.
Lá, para ser influenciador, o criador precisa comprovar maturidade, credibilidade e conhecimento técnico sobre o tema que aborda.

A medida pode parecer rígida, mas parte de um princípio simples: quem fala para milhões deve entender o peso da própria fala.
No Brasil, ao contrário, a falta de regulação cria um cenário em que a fama vale mais que o conteúdo — e o resultado é a desinformação travestida de carisma.


A geração vulnerável

Os jovens — nativos digitais — são as maiores vítimas desse novo ecossistema.
Criados em meio a dopamina instantânea, curtidas e algoritmos, eles acabam expostos a discursos radicais que se disfarçam de “autenticidade”.

Sem preparo emocional ou cívico, tornam-se massa de manobra de quem domina a linguagem da internet.
E o alerta já soa: 69% dos brasileiros apoiam a restrição do uso de redes sociais por menores de 14 anos.

“Estamos criando uma geração hiperconectada e subinformada”, alerta o sociólogo Marcos Ribeiro. “Eles sabem engajar, mas não sabem questionar.”


A disputa pela narrativa

A influência é uma força neutra — depende de quem a usa.
Nas mãos certas, educa, inspira e transforma.
Nas erradas, desinforma, divide e aliena.

A pergunta que fica é: quem está realmente no controle das narrativas?
O influenciador que aparece na tela? Ou os interesses que o financiam nos bastidores?

Enquanto países discutem ética digital e regulação, o Brasil ainda confunde liberdade com ausência de limites.
E nesse vácuo, cresce uma geração que sabe tudo sobre engajamento — mas cada vez menos sobre discernimento.


Refletir sobre o poder da influência é urgente. O futuro da comunicação — e da própria democracia — depende disso.http://jornalfactual.com.br

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  • Inês Theodoro

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