Quem paga para medir a eleição? O que existe por trás dos números das pesquisas de 2026

Levantamentos eleitorais influenciam o debate público, mas cada percentual divulgado tem por trás um contratante, um pagante, uma metodologia e uma amostra; Jornal Factual investiga como esse sistema funciona

Uma pesquisa eleitoral chega ao público de maneira simples: um candidato aparece com determinado percentual, outro vem logo atrás e os números rapidamente passam a dominar o debate político.

Mas existe uma história por trás de cada percentual.

Antes de um resultado chegar às manchetes, existe um instituto responsável pelo levantamento, uma metodologia, uma amostra, um questionário, um período de coleta e, principalmente, alguém que contratou e financiou aquela pesquisa.

Em 2026, boa parte dessas informações pode ser consultada publicamente.

A legislação eleitoral estabelece regras para o registro e a divulgação das pesquisas de intenção de voto. Os levantamentos destinados ao conhecimento público devem ser registrados no sistema PesqEle, da Justiça Eleitoral, dentro do prazo estabelecido pela legislação.

Isso permite que o eleitor tenha acesso a informações que normalmente não aparecem na manchete.

E é justamente aí que começa a pergunta do Jornal Factual:

Quem está por trás do número que estamos lendo?


O que existe por trás de uma pesquisa

O percentual apresentado ao público é apenas o resultado final de um processo que envolve diversas etapas.

É preciso definir quem será entrevistado, onde a coleta será realizada, qual será o tamanho da amostra, como os entrevistados serão selecionados e ponderados e quais perguntas serão feitas.

Também é preciso identificar quem contratou o levantamento e quem aparece como responsável pelo pagamento.

Essas informações são importantes porque permitem ao leitor conhecer o contexto em que aquela pesquisa foi produzida.

Isso, por si só, não significa que uma pesquisa seja parcial, irregular ou manipulada.

Mas significa que o financiamento e a metodologia são informações relevantes para a transparência.


Quem paga para medir a eleição?

O sistema eleitoral brasileiro permite consultar informações sobre as pesquisas registradas.

Entre os dados disponíveis estão informações relacionadas ao contratante, ao pagamento, à metodologia, ao questionário, à amostra e ao responsável técnico, conforme o registro realizado perante a Justiça Eleitoral.

O Portal de Dados Abertos do TSE também disponibiliza bases específicas relacionadas às pesquisas eleitorais, incluindo informações sobre contratantes, pagantes, notas fiscais, questionários e detalhamento territorial.

A partir desses dados, surge uma possibilidade importante de investigação:

é possível olhar não apenas para o resultado da pesquisa, mas também para a estrutura que produziu aquele resultado.


Quanto custa produzir uma pesquisa?

Uma pesquisa nacional envolve custos.

Há despesas com entrevistas, equipes de campo, supervisão, processamento, análise estatística e, dependendo da metodologia, deslocamentos e estrutura tecnológica.

Por isso, o valor declarado também é uma informação que merece ser observada.

Uma investigação jornalística pode reunir os valores declarados nos registros e compará-los com fatores como:

  • tamanho da amostra;
  • abrangência territorial;
  • metodologia;
  • período de coleta;
  • quantidade de entrevistas;
  • instituto responsável.

A comparação não permite, sozinha, concluir que uma pesquisa seja boa ou ruim.

Mas pode revelar padrões que mereçam uma investigação mais aprofundada.


Por que pesquisas realizadas na mesma época podem apresentar números diferentes?

Essa é uma das perguntas mais importantes.

Resultados diferentes não significam necessariamente fraude.

Duas pesquisas podem ser realizadas praticamente na mesma semana e apresentar resultados distintos por causa de diferenças na:

  • composição da amostra;
  • metodologia;
  • forma de coleta;
  • distribuição geográfica;
  • ponderação dos entrevistados;
  • período de entrevistas;
  • formulação das perguntas;
  • margem de erro.

Por isso, comparar apenas os percentuais pode levar a uma conclusão equivocada.

É necessário comparar também como cada número foi produzido.


A metodologia pode mudar o resultado

Pesquisas presenciais, telefônicas e outros métodos de coleta possuem características diferentes.

Uma pesquisa domiciliar, por exemplo, pode alcançar determinados grupos de eleitores com mais facilidade, enquanto uma pesquisa telefônica pode apresentar outras características de cobertura e taxa de resposta.

Também existem diferenças entre amostras e critérios de ponderação.

Por isso, quando dois institutos apresentam números diferentes, a primeira pergunta não deveria ser:

“Quem está mentindo?”

Mas:

“Como cada instituto chegou a esse resultado?”


E a ordem das perguntas?

Outro ponto que merece atenção é o questionário.

A ordem das perguntas pode modificar o contexto no qual o entrevistado manifesta sua opinião.

Perguntar primeiro sobre aprovação do governo, economia ou avaliação de determinado candidato cria um ambiente diferente daquele em que a intenção de voto é perguntada logo no início.

Isso não significa automaticamente manipulação.

Significa que o questionário faz parte da metodologia e precisa ser considerado na análise.

É por isso que o acesso à íntegra das perguntas aplicadas é tão importante.


Pesquisa pode influenciar o eleitor?

Aqui existe outra questão que não deve ser confundida com fraude.

Uma pesquisa procura medir a intenção de voto.

Mas, depois de publicada, ela passa a fazer parte do ambiente eleitoral.

Uma manchete informando que determinado candidato lidera pode alterar a percepção do eleitor sobre a disputa.

Alguns podem se aproximar do candidato que parece ter maior chance de vitória.

Outros podem votar justamente no adversário para tentar impedir essa vitória.

Há ainda aqueles que simplesmente ignoram as pesquisas.

Portanto, existem duas perguntas diferentes:

A pesquisa foi corretamente realizada?

e

A divulgação da pesquisa influencia o comportamento eleitoral?

A primeira pode ser examinada por meio dos registros, documentos e metodologia.

A segunda exige uma análise de comportamento eleitoral e da evolução das intenções de voto ao longo do tempo.


Pesquisa comprada: acusação exige prova

É importante estabelecer uma fronteira jornalística.

Uma pesquisa apresentar resultado diferente de outra não prova fraude.

Um instituto errar uma previsão não prova manipulação.

Uma pesquisa ser contratada por uma empresa, partido ou veículo de comunicação não prova irregularidade.

Para afirmar que houve manipulação seria necessário encontrar evidências concretas.

É por isso que o Jornal Factual propõe começar pelos documentos oficiais.

Não acreditar cegamente.

Não desacreditar antecipadamente.

Conferir.


COMO CONFERIR UMA PESQUISA ELEITORAL

O eleitor não precisa simplesmente acreditar no número apresentado em uma manchete.

As pesquisas eleitorais divulgadas publicamente devem ser registradas na Justiça Eleitoral, e as informações disponíveis no registro podem ser consultadas no PesqEle, sistema oficial do Tribunal Superior Eleitoral.

Na consulta, o eleitor pode verificar informações do levantamento, como:

  • contratante;
  • responsável pelo pagamento;
  • instituto responsável;
  • valor e informações financeiras constantes do registro;
  • período da coleta;
  • número de entrevistados;
  • metodologia;
  • margem de erro;
  • nível de confiança;
  • questionário;
  • responsável técnico;
  • abrangência geográfica.

Passo a passo

1. Localize o número de registro da pesquisa.

2. Consulte o levantamento no PesqEle.

3. Confira quem contratou e quem aparece como pagante.

4. Observe o período em que as entrevistas foram realizadas.

5. Leia a metodologia e o plano amostral.

6. Consulte o questionário.

7. Compare o levantamento com outras pesquisas realizadas no mesmo período.

🔗 CONSULTA OFICIAL

Consultar as pesquisas eleitorais de 2026 no Tribunal Superior Eleitoral

Transparência também é informação eleitoral.


A investigação do Jornal Factual

A proposta do Factual é ir além da reprodução dos percentuais divulgados pelos institutos.

A partir dos registros oficiais, é possível construir uma base comparativa contendo:

Instituto → Contratante → Pagante → Valor → Metodologia → Amostra → Questionário → Data da coleta → Resultado.

Com esses dados, será possível procurar padrões.

Existem contratantes que aparecem repetidamente?

Quais institutos concentram mais pesquisas?

Há pesquisas realizadas no mesmo período com resultados significativamente diferentes?

As diferenças podem ser explicadas pela metodologia?

Existem mudanças importantes depois da divulgação de determinados levantamentos?

E, quando houver dados históricos comparáveis, como os institutos se comportaram diante dos resultados efetivos das urnas?

Essas são perguntas que podem ser respondidas com documentos e dados.


A pergunta que fica

Em uma eleição na qual pesquisas ocupam enorme espaço no debate público, talvez o eleitor devesse olhar para além do percentual.

Antes de perguntar:

“Quem está ganhando?”

talvez seja necessário perguntar:

“Quem pagou para medir isso, como foi medido e o que exatamente esse número representa?”

Pesquisa eleitoral é uma ferramenta importante para compreender a opinião pública.

Mas transparência sobre quem contrata, quem paga, como a pesquisa é realizada e como seus resultados chegam ao público também faz parte da informação que o eleitor precisa conhecer.

O Jornal Factual não parte da conclusão de que exista manipulação.

Também não parte da conclusão de que todas as pesquisas estejam corretas.

A proposta é conferir.

Porque, antes de acreditar no percentual, vale conhecer a história que existe por trás dele.

A pesquisa mostra a fotografia. A investigação procura entender como essa fotografia foi produzida.

.Eleições 2026

Inês Theodoro

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