Gaza: o espelho incômodo da nossa civilização

“Eu desaprovo o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo.” — Evelyn Beatrice Hall

A frase acima deveria ser o fio condutor de qualquer sociedade que se diz democrática. E, no entanto, parece ecoar no vazio quando olhamos para Gaza. Em meio à fumaça dos bombardeios, aos corpos soterrados sob escombros e ao colapso de hospitais sem medicamentos, a civilização — tão orgulhosamente invocada em discursos diplomáticos — se revela frágil, quase hipócrita.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu subiu à tribuna da ONU afirmando que Israel “precisa terminar o trabalho” contra o Hamas. Apresentou a ofensiva como um ato de legítima defesa e segurança nacional. Até aí, nada fora do esperado. Mas a narrativa oficial contrasta violentamente com a realidade no terreno: mais de 66 mil palestinos mortos, milhões deslocados, bairros inteiros arrasados, fome deliberada usada como arma de guerra e um sistema de saúde em colapso. Esses não são “efeitos colaterais” — são consequências previsíveis e documentadas.

O discurso de Netanyahu tem camadas. Na superfície, é uma justificativa estratégica. Por baixo, é também uma tentativa de normalizar a violência, transformando o massacre de civis em mero detalhe de um objetivo “maior”. Quando um líder político fala de segurança sem sequer mencionar as vidas inocentes perdidas ou propor um plano concreto de reconstrução e paz, ele revela não apenas sua política, mas sua hierarquia de valores.

E aí está a pergunta incômoda: o que se esconde por trás dessa retórica? A resposta está nas investigações internacionais em andamento. O Tribunal Penal Internacional já avalia denúncias de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Organizações como Human Rights Watch e Anistia Internacional apontam para o uso da fome como método de coerção, ataques deliberados a infraestrutura civil e punição coletiva — práticas proibidas pelas convenções internacionais. Nada disso foi abordado no discurso. Foi silenciado.

Por isso, a saída de delegações antes da fala de Netanyahu dividiu opiniões. De um lado, foi um gesto de repúdio: países que se recusam a legitimar uma narrativa que consideram criminosa. De outro, uma oportunidade perdida: ao abandonar o debate, abdicou-se do confronto direto com a palavra — e, sem confronto, a retórica se impõe. Democracia não se faz apenas com protesto; também se faz com argumentos firmes diante do poder.

Mas talvez a questão mais profunda seja outra: o que esse conflito revela sobre nós? Sobre a comunidade internacional que repete discursos sobre direitos humanos enquanto permite que um povo inteiro seja confinado, bombardeado e empurrado ao desespero? A distância entre o que dizemos defender e o que realmente toleramos é um abismo — e Gaza é o espelho em que não queremos olhar.

Defender o direito à palavra, como disse Hall, não significa aceitar o uso dessa palavra para justificar o injustificável. Significa permitir que ela exista — e, então, confrontá-la com fatos, ética e verdade. Significa chamar as coisas pelo nome: crimes de guerra são crimes de guerra, independentemente de quem os cometa. E significa exigir responsabilização, cessar-fogo, investigação e, sobretudo, humanidade.

Enquanto o mundo desvia o olhar ou se perde em disputas geopolíticas, crianças continuam morrendo de fome em Gaza. Não é apenas uma tragédia distante — é um teste moral global. E, até agora, estamos reprovando.

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    Inês Theodoro

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