Enquanto o Brasil dança, crianças desaparecem — e ninguém quer falar sobre isso

Sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026,

Uma semana de euforia, um rastro que o confete não apaga

O Carnaval de 2026 cumpre, mais uma vez, o seu ritual coletivo: ruas tomadas, música alta, promessas de alegria imediata e a sensação confortável de que, por alguns dias, a realidade pode ser colocada em pausa. Mas a realidade não pausa. Ela observa. E cobra.

Enquanto o país dança, crianças desaparecem. Jovens somem. Doenças avançam. Violências se multiplicam. Histórias que não entram nos desfiles, não viralizam nos blocos e raramente chegam às capas, mas que deixam marcas profundas — e permanentes.

O problema não é a festa. O problema é o esquecimento.
É a ilusão perigosa de que excessos não têm consequência. De que multidões protegem. De que a euforia coletiva neutraliza riscos individuais.

Todos os anos, o padrão se repete: aumento nos registros de desaparecimento, principalmente de crianças e adolescentes; crescimento de casos de violência sexual; avanço de doenças infecciosas em meio à superlotação e ao descuido; hospitais sobrecarregados; famílias que entram em março procurando respostas que nunca chegam.

A folia seduz com promessas simples: pertencimento instantâneo, felicidade sem esforço, fuga da dureza cotidiana. Mas essa promessa é frágil — e, muitas vezes, falsa. A multidão não protege. O barulho não salva. O excesso não é liberdade; é vulnerabilidade.

Em meio ao caos alegre, a atenção se dilui. Um descuido de segundos. Um copo a mais. Uma confiança errada. Uma criança solta na multidão. Um jovem que entra na festa e não volta para casa. E quando algo dá errado, o som alto abafa o pedido de socorro.

Depois vem a quarta-feira. As ruas são lavadas. Os palcos desmontados. As redes sociais seguem para o próximo assunto. Mas mães continuam procurando filhos. Jovens continuam listados como “desaparecidos”. Diagnósticos chegam tarde. E o país segue tratando tudo como exceção, quando já virou rotina.

Esta não é uma convocação ao medo — é um chamado à consciência. Curtir não pode significar desligar o senso de responsabilidade. Alegria não pode ser sinônimo de abandono. Liberdade não existe sem cuidado.

O Carnaval dura poucos dias.
As escolhas feitas nele podem durar uma vida inteira.

Que a festa exista.
Mas que a lucidez não tire folga.

Porque enquanto o Brasil dança, há quem desapareça —
e fingir que não vê também é uma escolha.

.http://jornalfactual.com.br

  • Inês Theodoro

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