Disputa presidencial chega à reta final cercada por pesquisas apertadas, articulações partidárias, atenção do mercado e crescente preocupação internacional com segurança eleitoral e influência externa
Brasília — 2 de outubro de 2026
Faltam dois dias para o primeiro turno das eleições presidenciais e a disputa pelo Palácio do Planalto entrou em sua fase mais sensível.
Na superfície, o eleitor vê candidatos em entrevistas, redes sociais, comícios e últimos pedidos de voto. Nos bastidores, entretanto, outras disputas avançam simultaneamente: a composição política para depois das urnas, a relação com o Congresso, as expectativas econômicas e a atenção de governos estrangeiros sobre o resultado brasileiro.
A fotografia eleitoral também permanece apertada.
O Datafolha divulgado em 1º de outubro apontou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 45% dos votos válidos no primeiro turno, contra 40% de Flávio Bolsonaro (PL). Em uma eventual segunda rodada entre os dois, o levantamento mostrou 48% para Lula e 45% para Flávio, dentro da margem de erro.
Outro levantamento divulgado nesta sexta-feira, porém, apresentou uma fotografia diferente: o Vox Brasil registrou Flávio Bolsonaro com 41,2% e Lula com 40,4% no primeiro turno.
A diferença entre os levantamentos não permite transformar os números em uma previsão do resultado. Mas revela algo importante: a eleição chega à reta final sem uma fotografia única produzida pelas pesquisas.
E é justamente nesse ambiente que começa a segunda eleição: aquela que acontece nos bastidores.
1. O que os partidos estão calculando para depois da urna
Uma eleição presidencial não termina necessariamente na definição do vencedor.
O próximo presidente precisará governar com um Congresso que terá papel decisivo na aprovação de projetos, orçamento e mudanças legislativas.
Por isso, a reta final também é acompanhada por partidos e lideranças interessadas em preservar espaço de negociação.
A questão central é menos quem declarou apoio a quem e mais qual será a configuração política que surgirá depois do primeiro turno.
Caso haja segundo turno, partidos e candidatos eliminados ganham novo peso. Seus eleitores passam a ser disputados pelos dois concorrentes restantes, enquanto as estruturas partidárias podem se transformar em importantes pontos de negociação.
É nesse intervalo entre o resultado do primeiro turno e a segunda votação que alianças antes improváveis podem voltar à mesa.
2. A campanha mudou de palco
O cancelamento do debate da TV Globo acrescentou outro elemento à reta final.
Lula e Flávio Bolsonaro não participaram do encontro que estava previsto para esta quinta-feira, levando ao cancelamento do debate.
O episódio reforça uma transformação que já vinha acontecendo durante a campanha: parte da comunicação eleitoral migrou da televisão aberta para ambientes escolhidos pelos próprios candidatos.
Podcasts, entrevistas, transmissões pela internet e redes sociais permitem maior controle sobre tempo, formato e mensagem.
Há, porém, uma consequência jornalística importante.
Quando candidatos evitam confrontos conjuntos, o eleitor deixa de observar respostas simultâneas para as mesmas perguntas, sob as mesmas condições.
A campanha ganha controle de comunicação. O público perde parte da comparação direta.
3. O mundo está olhando para a eleição brasileira
A disputa presidencial também ultrapassou as fronteiras brasileiras.
O tamanho da economia brasileira, sua posição entre os grandes produtores de alimentos e energia, sua participação nos BRICS e sua relação comercial com Estados Unidos, China e Europa fazem do resultado uma questão de interesse internacional.
A eleição ocorre ainda em um momento de disputa geopolítica mais ampla.
Washington acompanha de perto o cenário brasileiro. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou nesta semana que acompanha “muito de perto” a eleição e classificou o Brasil como um país importante.
Ao mesmo tempo, a China permanece como um dos principais parceiros comerciais do Brasil.
Para os governos estrangeiros, portanto, o resultado brasileiro não representa apenas uma mudança de presidente.
Pode significar mudanças na política comercial, na relação diplomática, na agenda ambiental, nos investimentos e no posicionamento brasileiro em organismos internacionais.
4. O assunto que colocou a eleição no radar da inteligência internacional
Um dos fatos mais sensíveis da reta final veio dos bastidores diplomáticos.
Segundo investigação da Reuters, autoridades brasileiras de inteligência informaram representantes da França e da Alemanha sobre supostas interferências dos Estados Unidos e da Rússia no processo eleitoral brasileiro.
A informação precisa ser tratada com cautela.
O relato foi baseado em fontes e documentos relacionados a reuniões realizadas em Brasília. A Reuters informou que os detalhes sobre a alegada interferência russa não foram apresentados publicamente. Os governos dos Estados Unidos e da Rússia não confirmaram as acusações; Washington já havia negado anteriormente tentativa de interferência eleitoral no Brasil.
O episódio, porém, revela uma preocupação concreta: a eleição brasileira passou a ser observada também sob a perspectiva da guerra de informação e da segurança digital.
Representantes franceses e alemães estiveram em Brasília em setembro para discutir, entre outros assuntos, a aplicação da Lei de Serviços Digitais da União Europeia e respostas coordenadas diante de riscos relacionados ao ambiente digital.
Uma autoridade brasileira da área cibernética ouvida pela Reuters afirmou que os ataques digitais no país quase dobraram em relação a 2025 e que também houve aumento de invasões e tentativas de phishing contra a Presidência da República. A origem desses ataques, entretanto, não foi publicamente atribuída aos governos citados.
Essa distinção é fundamental.
Aumento de ataques cibernéticos não significa, por si só, interferência de um governo estrangeiro.
São fatos que precisam ser investigados separadamente.
5. O mercado enxerga uma eleição diferente
Existe ainda uma segunda leitura acontecendo simultaneamente: a dos mercados.
Para o eleitor, a economia costuma ser traduzida em perguntas diretas:
Vai haver emprego? O preço dos alimentos vai cair? O crédito ficará mais barato? Como ficarão os impostos?
Para investidores, a linguagem é diferente.
Entram na conta:
- trajetória da dívida pública;
- resultado fiscal;
- política monetária;
- juros de longo prazo;
- previsibilidade das regras;
- capacidade de investimento;
- relação entre Executivo e Congresso.
A Reuters destacou nesta sexta-feira que os mercados acompanham a eleição brasileira em meio a preocupações com sustentabilidade fiscal e pressão decorrente das taxas de juros elevadas.
São duas maneiras de observar a mesma eleição.
Para o cidadão, o impacto aparece no orçamento.
Para o mercado, aparece nos indicadores.
6. A insatisfação com a política também faz parte da eleição
A disputa ocorre ainda em um ambiente de desconfiança institucional.
Esse fenômeno ajuda a explicar por que as redes sociais ganharam tamanho peso na campanha.
Vídeos curtos, cortes de entrevistas, conteúdos produzidos por inteligência artificial e mensagens distribuídas por aplicativos podem alcançar milhões de pessoas em poucas horas.
O problema é que velocidade e alcance não significam necessariamente qualidade da informação.
Por isso, a eleição de 2026 também representa um teste para instituições, plataformas digitais, campanhas e jornalistas: como separar informação, propaganda, manipulação e desinformação em uma disputa cada vez mais digital?
7. O verdadeiro teste começa depois do resultado
Existe uma contradição no centro da eleição.
As campanhas estão concentradas em conquistar votos.
Mas o próximo presidente precisará conquistar outra coisa: capacidade de governar.
Isso dependerá da relação com o Congresso, dos governadores, dos partidos e das condições econômicas encontradas a partir de 2027.
Se houver segundo turno, o cenário ficará ainda mais complexo.
Os candidatos eliminados no primeiro turno poderão se tornar peças importantes na negociação política. Seus partidos precisarão decidir entre apoiar uma das candidaturas, manter independência ou negociar espaços e compromissos.
É nesse momento que muitas alianças que hoje parecem improváveis podem ganhar relevância.
A eleição que aparece e a eleição que não aparece
A eleição visível é aquela dos palanques, debates, pesquisas e redes sociais.
A outra acontece simultaneamente.
É a eleição das negociações partidárias, das expectativas econômicas, das relações diplomáticas, da segurança cibernética e das articulações que começam antes mesmo de o eleitor apertar o botão “confirma”.
Nenhuma dessas forças, entretanto, substitui a urna.
Pesquisas registram intenções de voto em determinados momentos. Mercados expressam expectativas de agentes econômicos. Partidos fazem cálculos políticos. Governos estrangeiros defendem seus interesses.
O voto, porém, continua sendo uma decisão individual do eleitor brasileiro.
É por isso que a pergunta mais importante nesta reta final talvez não seja apenas quem está na frente.
É outra:
que tipo de governo poderá nascer da combinação entre o resultado das urnas, a composição do Congresso, a situação econômica e o ambiente internacional?
Essa resposta começará a aparecer depois das 17h de domingo.
Mas parte dela já está sendo construída agora, nos bastidores.





