Não é falta de recursos. É decisão.

Com o caixa abastecido, o Brasil entra em 2026 diante do fim das desculpas

Quinta-feira, 1º de janeiro de 2026

O Brasil inicia 2026 diante de um ponto de inflexão histórico. Pela primeira vez em muito tempo, o debate nacional não pode mais ser empurrado para o terreno da escassez. Os cofres públicos estão cheios, os recordes de arrecadação são oficiais, reiterados e amplamente conhecidos. O dinheiro existe. O que falta explicar é o destino.

Por isso, este não é um texto de celebração. É de responsabilidade.

Ao atravessar a virada do calendário, o país carrega um dado incontornável: arrecadar deixou de ser o problema central. A partir de agora, cada escolha orçamentária, cada prioridade definida e cada investimento adiado passam a ter autoria clara. O discurso da falta de recursos perde força. O que permanece é a pergunta que incomoda: por que não foi feito, se havia condições para fazer?

Durante anos, a rigidez fiscal foi apresentada como argumento absoluto. Ela segue relevante, mas já não é suficiente para explicar tudo. Regras não operam sozinhas. Orçamentos não se engessam por acaso. Há decisões políticas por trás de cada obra paralisada, de cada serviço público que não melhora, de cada projeto estratégico que fica no papel.

Orçamento é escolha. E escolha revela prioridades.

Se a capacidade de arrecadação brasileira já se aproxima da observada em economias desenvolvidas, os resultados precisam acompanhar essa realidade. Infraestrutura eficiente, inovação produtiva, crescimento sustentável e serviços públicos à altura não podem continuar sendo promessas recorrentes em um país que já provou saber cobrar. Falta provar que sabe transformar arrecadação em entrega.

O paradoxo se torna cada vez mais visível: o Estado cresce em volume financeiro, mas a percepção de retorno não acompanha. A distância entre o que se paga e o que se recebe corrói a confiança, alimenta o ceticismo e enfraquece o pacto social. Não se trata apenas de números frios, mas de impacto real na vida cotidiana.

Entrar em 2026, portanto, é entrar em um ano de exposição. Não de anúncios, mas de execução. Não de discursos, mas de resultados mensuráveis. Cada decisão tomada — ou evitada — será observada com lupa. Cada prioridade escolhida deixará rastros claros.

O tempo das justificativas automáticas se encerra aqui.

O relógio segue avançando.
O caixa está abastecido.
As decisões, agora, terão nome, data e consequência.

Que 2026 seja lembrado não como mais um ano de arrecadação recorde, mas como o momento em que o Brasil deixou de financiar inércias, privilégios e atrasos — e passou, finalmente, a investir no futuro que há décadas promete construir.

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    Inês Theodoro

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