Todos os anos, governos anunciam investimentos milionários em segurança penitenciária. São escâneres corporais, detectores de metais, câmeras inteligentes, bloqueadores de sinal de celular e sistemas de monitoramento cada vez mais sofisticados. As solenidades são registradas, as fotos estampam os portais oficiais e a promessa é sempre a mesma: tornar os presídios mais seguros.
Dias ou semanas depois, uma operação policial encontra dezenas — às vezes centenas — de celulares escondidos dentro da mesma unidade prisional.
A pergunta é inevitável: se a tecnologia existe, por que o problema continua?
A resposta talvez seja mais desconfortável do que parece.
O problema nunca foi o celular
O telefone é apenas um instrumento.
O verdadeiro problema é a capacidade de organizações criminosas manterem comunicação permanente de dentro de estabelecimentos cuja segurança é responsabilidade exclusiva do Estado.
Sem celulares, boa parte dos golpes virtuais, das extorsões telefônicas, das ordens para o tráfico e da coordenação de crimes se torna muito mais difícil. Não impossível, mas significativamente mais limitada.
Por isso, impedir o ingresso desses aparelhos deveria ser uma das prioridades absolutas da administração penitenciária.
Tecnologia sem gestão é apenas equipamento caro
O Brasil dispõe de tecnologias capazes de reduzir drasticamente a entrada de objetos proibidos.
Escâneres corporais identificam materiais ocultos.
Bloqueadores dificultam comunicações.
Câmeras monitoram áreas sensíveis.
Equipamentos de inspeção auxiliam revistas.
Mas tecnologia não toma decisões.
Ela depende de manutenção, operação correta, fiscalização constante e protocolos que sejam efetivamente cumpridos.
Quando esses elementos falham, o investimento perde eficiência.
Como celulares continuam entrando?
Investigações realizadas ao longo dos últimos anos revelaram diferentes métodos utilizados para introduzir aparelhos em unidades prisionais.
Entre eles estão:
- visitantes que tentam ingressar com objetos escondidos;
- uso de drones;
- encomendas adulteradas;
- arremessos sobre muralhas;
- esquemas de corrupção envolvendo pessoas que facilitam o acesso ilícito.
Os mecanismos variam conforme o caso.
O que chama atenção é que todos exploram vulnerabilidades humanas antes mesmo de vulnerabilidades tecnológicas.
O mercado clandestino
Dentro de um presídio, um telefone celular pode alcançar um valor muito superior ao praticado fora dele.
Quanto maior a dificuldade de acesso, maior tende a ser seu preço no mercado ilegal.
Para organizações criminosas, esse custo representa um investimento.
O aparelho permite manter contato com integrantes externos, administrar atividades ilícitas e aplicar golpes financeiros que movimentam grandes quantias.
Enquanto houver demanda, haverá tentativas de abastecer esse mercado clandestino.
A responsabilidade institucional
É importante evitar generalizações.
A grande maioria dos policiais penais e demais servidores do sistema penitenciário exerce suas funções com profissionalismo e honestidade.
No entanto, basta uma falha grave ou a atuação criminosa de um pequeno grupo para comprometer a segurança de toda uma unidade.
Por isso, sempre que grandes apreensões de celulares são realizadas, surgem perguntas que merecem respostas objetivas:
Como esses aparelhos entraram?
Quais protocolos falharam?
Os equipamentos estavam funcionando?
As inspeções eram realizadas conforme previsto?
Houve negligência?
Houve corrupção?
Responder a essas questões fortalece as instituições. Ignorá-las apenas alimenta a desconfiança da sociedade.
O custo da impunidade
Quando o cidadão percebe que regras rigorosas são aplicadas em diversas áreas da vida cotidiana, mas objetos proibidos continuam circulando dentro de estabelecimentos de segurança máxima, instala-se uma sensação de incoerência.
Não basta comprar tecnologia.
É necessário garantir que ela funcione.
Não basta criar protocolos.
É preciso fiscalizar seu cumprimento.
Não basta investigar o crime organizado.
Também é indispensável investigar eventuais falhas administrativas ou atos de corrupção que permitam sua atuação.
A credibilidade do Estado
A legitimidade das instituições públicas depende da confiança.
Essa confiança nasce quando as regras são cumpridas de forma consistente, quando os recursos públicos produzem resultados concretos e quando irregularidades são investigadas com transparência, independentemente de quem sejam os envolvidos.
A sociedade não espera perfeição.
Espera responsabilidade.
Muito além dos muros
O debate sobre celulares em presídios não diz respeito apenas à segurança pública.
Ele trata da capacidade do Estado de exercer controle sobre espaços que estão sob sua própria custódia.
Muros altos, câmeras modernas e equipamentos sofisticados são ferramentas importantes, mas não resolvem sozinhos um problema cuja raiz está na gestão, na fiscalização e na integridade institucional.
Enquanto houver brechas exploradas pelo crime organizado, os investimentos em tecnologia terão alcance limitado.
No fim, a eficiência do sistema prisional será medida menos pelo número de equipamentos adquiridos e muito mais pela capacidade de impedir que pessoas privadas de liberdade continuem comandando crimes, aplicando golpes e desafiando o próprio Estado de dentro das prisões.
Essa é a discussão que realmente importa.
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