Caso de Paulo Peregrino se tornou símbolo do potencial da terapia CAR-T, desenvolvida por pesquisadores brasileiros; estudo avança e busca ampliar o acesso pelo SUS
Palmas — Depois de 13 anos convivendo com um linfoma não-Hodgkin e de passar por dezenas de sessões de quimioterapia e um transplante de medula óssea, o publicitário Paulo Peregrino chegou a um ponto em que as alternativas convencionais já não apresentavam os resultados esperados.
Em março de 2023, ele recebeu uma terapia experimental desenvolvida no Brasil: a CAR-T Cell. Apenas 48 dias depois, exames indicaram remissão completa da doença.
O caso, que inicialmente ganhou repercussão nacional em 2023, voltou a chamar atenção em 2026 diante do avanço da pesquisa brasileira e da perspectiva de ampliar o acesso à terapia pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Paulo foi um dos pacientes tratados pelo grupo ligado ao Hemocentro de Ribeirão Preto, à Universidade de São Paulo (USP) e ao Instituto Butantan. Segundo informações do Hemocentro, ele fazia parte de um grupo de pacientes com linfoma não-Hodgkin de células B que não haviam respondido adequadamente aos tratamentos convencionais.
Quando o próprio sistema imunológico passa a atacar o câncer
A terapia CAR-T representa uma mudança importante na forma de combater determinados tipos de câncer do sangue.
Em vez de utilizar somente medicamentos para destruir as células tumorais, o tratamento utiliza células de defesa do próprio paciente.
Os linfócitos T são retirados do organismo e levados para um laboratório. Lá, passam por uma modificação genética que permite que sejam preparados para reconhecer determinado alvo presente nas células cancerígenas.
Depois de modificadas e multiplicadas, essas células retornam ao organismo do paciente, onde passam a procurar e atacar as células que apresentam o alvo identificado.
No tratamento desenvolvido pelo grupo brasileiro, o alvo é o CD19, uma proteína encontrada em células da leucemia linfoide aguda de células B e do linfoma não-Hodgkin de células B. Por isso, a tecnologia não é uma terapia universal contra todos os tipos de câncer.
O caso de Paulo
Diagnosticado com linfoma não-Hodgkin, Paulo passou por uma longa sequência de tratamentos. Foram cerca de 50 sessões de quimioterapia e um transplante de medula óssea antes de ser incluído na pesquisa.
Em 2023, quando recebeu a terapia CAR-T, a doença estava disseminada pelo sistema linfático. O acompanhamento por exames de imagem mostrou uma mudança expressiva poucas semanas depois.
Segundo relatos divulgados sobre o caso, um PET scan realizado após o tratamento não apresentou mais os sinais anteriormente observados da doença. A remissão ocorreu aproximadamente 48 dias depois da aplicação das células modificadas.
O resultado não significa, entretanto, que a terapia possa ser considerada uma cura universal para o câncer. A própria Anvisa destacou, ao analisar o uso experimental do produto em Paulo, que a CAR-T não é uma terapia de rotina e que estudos adicionais são necessários para avaliar segurança e eficácia.
Resultado que ultrapassa um único paciente
O interesse científico pelo caso de Paulo está justamente em não se tratar apenas de uma história individual.
Segundo o Hemocentro de Ribeirão Preto, 20 pacientes com leucemia linfoide aguda de células B ou linfoma não-Hodgkin de células B já haviam sido tratados com a tecnologia desenvolvida no Brasil em caráter experimental ou compassivo.
Em 2026, informações divulgadas sobre os resultados do estudo apontaram respostas próximas de 90% em pacientes avaliados, considerando redução significativa ou desaparecimento dos tumores. A descrição dos resultados deve ser interpretada dentro do contexto do estudo e de seus critérios de avaliação, e não como uma taxa de cura para todos os pacientes com câncer.
O próprio Butantan informa que, nos resultados experimentais acumulados até então, a terapia apresentou 80% de eficácia na eliminação dos tumores entre 20 pacientes tratados.
A diferença entre os números divulgados reforça a importância de observar o tamanho da amostra, os critérios utilizados e a fase de cada estudo antes de transformar os resultados em uma taxa geral de eficácia.
De tratamento experimental a possível opção no SUS
O próximo passo da pesquisa é ampliar a avaliação da tecnologia.
O estudo clínico CARTHEDRALL, conduzido pelo Hemocentro de Ribeirão Preto em parceria com a USP e a Fundação Butantan, prevê o tratamento de 81 pessoas com leucemia linfoide aguda de células B ou linfoma não-Hodgkin de células B refratários.
A pesquisa ocorre em cinco centros de referência no Estado de São Paulo e tem como objetivo avaliar a segurança e a eficácia da terapia produzida nacionalmente.
A produção brasileira também ganhou uma estrutura própria. O Núcleo de Terapia Avançada (Nutera) foi criado para permitir a fabricação das células CAR-T em condições controladas e ampliar a capacidade de atendimento.
Segundo o Hemocentro, a estrutura poderá chegar futuramente à capacidade de atender até 300 pacientes por ano.
Por que produzir no Brasil importa
A CAR-T é uma terapia de alta complexidade e personalizada. O processo envolve coleta das células do paciente, modificação em laboratório, expansão das células e posterior reinfusão.
Essa complexidade ajuda a explicar por que o tratamento é caro e ainda não está disponível de forma ampla.
O desenvolvimento de uma plataforma nacional busca reduzir custos, aumentar a capacidade de produção e possibilitar que a tecnologia seja incorporada ao SUS no futuro.
O Butantan afirma que a parceria com USP e Hemocentro de Ribeirão Preto tem justamente entre seus objetivos ampliar o acesso e viabilizar a disponibilização gratuita da terapia pelo sistema público.
Uma história pessoal que virou pesquisa nacional
Para Paulo Peregrino, a CAR-T representou uma mudança radical depois de anos de tratamentos sem resposta definitiva.
Para a ciência brasileira, porém, o caso representa algo maior: a possibilidade de desenvolver, dentro do país, uma terapia celular altamente sofisticada para pacientes que já esgotaram alternativas convencionais.
A trajetória ainda está em andamento. A remissão de Paulo é um resultado individual expressivo, mas a transformação desse tipo de tratamento em uma opção disponível para milhares de pacientes depende da conclusão dos estudos, da avaliação regulatória, da capacidade de produção e da definição de sua incorporação ao sistema público.
O que começou como uma tentativa experimental em um paciente com poucas alternativas tornou-se parte de uma pesquisa que agora busca responder uma pergunta maior: é possível transformar uma terapia personalizada e de alta complexidade em um tratamento produzido no Brasil e acessível pelo SUS?
A resposta ainda está sendo construída pela ciência.
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