O PODER EM XEQUE

O espelho embaçado do Supremo

O julgamento envolvendo Alexandre de Moraes expôs uma questão maior que o destino de uma investigação: quem controla o poder quando o próprio tribunal precisa julgar um de seus integrantes?

O problema do julgamento desta terça-feira (15) não termina na pergunta sobre Alexandre de Moraes.

Na verdade, essa talvez seja a pergunta menos importante.

O que o plenário do Supremo Tribunal Federal expôs foi um problema muito mais profundo: o limite dos mecanismos de controle quando a controvérsia atinge o próprio tribunal que precisa decidir sobre ela.

É o velho dilema resumido na expressão latina quis custodiet ipsos custodes?

Quem vigia os vigilantes?

No caso brasileiro, a resposta não é simples.

O Supremo é a instância máxima do Poder Judiciário. Não existe um tribunal superior ao STF para revisar suas decisões jurisdicionais.

O Conselho Nacional de Justiça também não funciona como instância revisora das decisões judiciais do Supremo.

Existem mecanismos de responsabilização política, como o processo por crime de responsabilidade no Senado, mas eles pertencem a outra esfera e obedecem a outra lógica.

Na prática, quando a controvérsia envolve um ministro do próprio STF, o controle jurisdicional permanece dentro da própria Corte.

E foi exatamente essa arquitetura que entrou em teste nesta terça-feira.


A crise deixou de ser silenciosa

O episódio ganhou uma dimensão incomum quando Alexandre de Moraes e André Mendonça passaram a se confrontar abertamente no plenário.

Moraes questionou a condução da apuração e acusou Mendonça de direcionamento.

Mendonça respondeu:

“Mentira.”

A frase é curta, mas o significado institucional é enorme.

Dois ministros do Supremo passaram a contestar publicamente a atuação um do outro em torno da condução de uma investigação que envolve um integrante da própria Corte.

Isso ultrapassa a divergência jurídica tradicional.

É uma ruptura pública de confiança entre integrantes do colegiado.

Não é necessário escolher um dos lados para reconhecer a gravidade institucional do episódio.

As acusações precisam ser comprovadas.

Mas o confronto existe.

E ocorreu dentro do plenário do tribunal responsável por arbitrar os conflitos constitucionais do país.


A relatoria virou uma questão de poder

A Petição 16.662 acrescentou outro elemento à equação.

O processo deixou a relatoria de André Mendonça e passou para Edson Fachin, presidente do Supremo.

A mudança ocorreu depois que Fachin, na condição de presidente da Corte, determinou a remessa à Presidência de procedimentos relacionados ao mesmo conjunto de fatos que poderiam envolver investigação de ministros.

A submissão da questão ao plenário pode ser compreendida como uma tentativa de deslocar a controvérsia da esfera das decisões individuais para uma decisão colegiada.

É uma solução institucional possível.

Mas ela também produz uma questão inevitável:

quais são os critérios objetivos que justificam a mudança de relatoria e até que ponto esses critérios são transparentes para o público?

Essa pergunta não significa afirmar que houve manipulação.

Significa reconhecer que a escolha de quem conduz um processo pode ter importância institucional, especialmente quando diferentes ministros estão em desacordo sobre seus rumos.

Quanto maior a sensibilidade do processo, maior deveria ser a capacidade da instituição de explicar suas próprias regras.

É aí que a crise deixa de ser apenas jurídica.

Passa a ser uma crise de confiança.


Quando o quórum diminui, o peso político aumenta

Kassio Nunes Marques declarou-se impedido.

Dias Toffoli declarou suspeição por foro íntimo.

O resultado é um colegiado menor para decidir uma questão que envolve diretamente outro integrante do Supremo.

Do ponto de vista estritamente processual, impedimentos e suspeições fazem parte do funcionamento normal de qualquer tribunal.

Mas existe uma dimensão política inevitável.

Em uma Corte de 11 cadeiras — e com uma vaga em aberto — cada ausência altera o peso relativo dos votos restantes.

Não significa que o resultado esteja previamente determinado.

Não significa que a decisão seja ilegítima.

Mas significa que a composição do colegiado se torna parte relevante da percepção pública sobre o julgamento.

E essa percepção não pode ser simplesmente ignorada.


O que está debaixo do tapete

O episódio revela questões que vão muito além da Petição 16.662.

1. Quem controla o controlador?

O desenho institucional brasileiro não criou uma instância judicial acima do Supremo.

Isso é uma característica estrutural, não uma anomalia criada pelo caso Moraes.

Mas o episódio mostra o desconforto produzido quando esse desenho é colocado à prova.

Se um ministro do STF é questionado, a resposta jurisdicional precisa ser construída dentro do próprio STF.

O tribunal é, simultaneamente, o espaço onde a controvérsia é julgada e a instituição diretamente envolvida na crise.

É aí que surge o ponto cego.


2. Relatoria não é apenas burocracia

Distribuição, prevenção, competência e alteração de relatoria podem parecer detalhes para quem observa o processo de fora.

Não são.

Quem conduz um processo possui responsabilidades processuais relevantes.

Por isso, mudanças em casos de enorme repercussão precisam ser acompanhadas de explicações igualmente claras.

A questão não é presumir que uma mudança de relatoria tenha sido feita para produzir determinado resultado.

A questão é mais simples:

o cidadão consegue compreender, sem depender da versão de um dos lados, por que o processo mudou de mãos?

Se a resposta for não, nasce um problema de legitimidade perceptiva.

E instituições democráticas dependem também de confiança pública.


3. Quanto maior o protagonismo, maior a exigência de controle

O Supremo assumiu, especialmente nos últimos anos, protagonismo crescente em temas de enorme impacto institucional e político.

Esse protagonismo, por si só, não significa desvio de função.

Mas produz uma consequência:

quanto maior o poder exercido por uma instituição, maior a necessidade de mecanismos claros de controle, transparência e prestação de contas quando ela própria se torna objeto da controvérsia.

O ponto não é reabrir toda a discussão sobre a atuação do STF.

É observar a consequência institucional.

Quanto mais central o tribunal se torna nas disputas nacionais, maior também é a necessidade de que seus próprios procedimentos sejam compreensíveis e previsíveis.


O calendário eleitoral amplia o custo da opacidade

Há ainda um elemento impossível de retirar da fotografia:

o calendário eleitoral.

Em setembro de 2026, qualquer decisão envolvendo um ministro que exerceu papel central em questões eleitorais será inevitavelmente interpretada também pelo ambiente político.

Isso não significa que o contexto eleitoral determine o conteúdo da decisão.

Mas ele amplia o custo de qualquer opacidade.

Uma decisão tecnicamente fundamentada pode ser interpretada politicamente por grupos que já chegam ao julgamento com desconfiança.

É justamente por isso que a Corte precisa ser ainda mais cuidadosa com transparência, previsibilidade e fundamentação.

Quanto maior a desconfiança externa, maior deve ser a clareza interna.


Moraes não está sendo condenado. E isso precisa ser dito.

Há uma armadilha no debate público.

Transformar a existência de mensagens, relações profissionais ou elementos de uma investigação em prova automática de crime.

Isso seria jornalisticamente irresponsável.

Por outro lado, transformar a existência de questionamentos em algo que não merece apuração seria igualmente problemático.

A régua precisa ser a mesma para todos:

alegação não é fato.

suspeita não é prova.

investigação não é condenação.

relação profissional não é, por si só, crime.

E arquivamento ou rejeição de uma investigação também não equivale necessariamente a uma declaração absoluta de inexistência de qualquer fato controverso.

O processo existe justamente para separar essas coisas.


O verdadeiro julgamento

É por isso que o julgamento de 15 de setembro não deveria ser acompanhado apenas pelo placar de votos.

O resultado sobre a possibilidade de investigação será importante.

Mas a questão maior permanecerá.

O Supremo consegue aplicar a si mesmo o rigor institucional que exige das demais instituições?

Consegue explicar suas decisões de maneira suficientemente transparente?

Consegue administrar divergências entre seus próprios ministros sem transformar o procedimento em disputa de autoridade?

Consegue demonstrar que mudanças de relatoria obedecem a critérios previsíveis?

Consegue preservar a confiança pública quando o investigado é um dos próprios integrantes?

Essas perguntas não são contra o STF.

São perguntas que uma instituição poderosa precisa suportar.


O espelho

O episódio de 15 de setembro revelou um Supremo dividido sobre a própria condução de uma crise que atinge um de seus ministros.

Moraes questiona a investigação.

Mendonça contesta Moraes.

Fachin assume a relatoria e leva a questão ao colegiado.

Dois ministros deixam de votar.

E o tribunal precisa decidir como lidar com uma controvérsia que nasceu dentro de sua própria estrutura.

Tudo isso acontece enquanto o país se aproxima de uma eleição.

É difícil imaginar cenário mais sensível para uma Corte constitucional.

O problema, portanto, não é simplesmente descobrir quem venceu o julgamento.

O problema é saber se, depois dele, o cidadão continuará acreditando que as regras são as mesmas para todos.

Porque uma instituição não perde legitimidade apenas quando erra.

Pode perdê-la também quando não consegue explicar, com clareza, como controla o próprio poder.

E esse talvez seja o aspecto mais incômodo de toda a crise.

O Supremo entrou no espelho.

Agora precisa mostrar ao país o que está vendo.


O PODER EM XEQUE

Fato exige prova.
Suspeita exige apuração.
Poder exige controle.
E controle exige transparência.

Quando o árbitro precisa julgar um dos próprios árbitros, a regra do jogo precisa ser mais clara — não menos.

.Eleições 2026

Inês Theodoro

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