Silêncios que Gritam: A Jornada Invisível dos Jovens em Medidas Socioeducativas

No coração de Palmas, entre muros discretos e olhares tímidos, um grupo de adolescentes tenta reescrever suas próprias histórias. São jovens que, por caminhos tortuosos, chegaram ao Núcleo de Atendimento Integrado (NAI) para cumprir medidas socioeducativas como Liberdade Assistida (LA) ou Prestação de Serviço à Comunidade (PSC). Mas por trás das estatísticas e dos processos, há histórias de abandono, lares desfeitos e sonhos interrompidos — vidas marcadas por escolhas que nem sempre foram suas.

Muitos deles carregam nas costas fardos que deveriam ser dos adultos: pais ausentes, viciados em drogas, álcool ou jogos de azar. Cresceram em ambientes instáveis, onde o afeto era raro e a violência cotidiana. Não é difícil entender por que tantos desses adolescentes acabam buscando pertencimento onde ele não existe — e encontrando caminhos que os levam a medidas socioeducativas.

Foi para olhar com mais empatia para essa realidade que, nesta quinta-feira (2), a Prefeitura de Palmas, por meio da Secretaria Municipal de Ação Social (Semas), promoveu mais um encontro do Grupo Reflexivo dos Serviços de Medidas Socioeducativas, realizado no NAI. A roda de conversa contou com a participação de acadêmicas de enfermagem da Ulbra Palmas, que abordaram um tema urgente e delicado: a saúde mental dos adolescentes.

“Queremos que esses encontros contribuam não apenas para o desenvolvimento pessoal, mas também para a reintegração deles à sociedade. É sobre dar novas oportunidades e mostrar que o futuro ainda pode ser escrito de outra forma”, explicou Lídia Xavier, gerente de Medidas Socioeducativas em Meio Aberto do NAI.

Ansiedade, depressão e a luta por um recomeço

A palestra foi conduzida pela acadêmica de enfermagem Mickaille Xavier Oliveira, que destacou dados preocupantes revelados em estudos recentes. “Um em cada sete adolescentes relata frustrações profundas causadas pela ansiedade e, muitas vezes, isso evolui para quadros de depressão. Essa é uma realidade que não podemos ignorar”, destacou.

Para muitos desses jovens, a ansiedade não é apenas uma palavra médica — é um peso constante. É a incerteza do amanhã, o medo de repetir os erros dos pais, a vergonha de não se encaixar. É também a sensação de que o mundo não reservou um lugar para eles. Por isso, espaços como o do NAI tornam-se refúgios, oferecendo não só orientação, mas também escuta, acolhimento e esperança.

Um trabalho feito a muitas mãos

Os encontros, realizados quinzenalmente, contam com parcerias importantes, como a Fundação Escola de Saúde Pública de Palmas (Fesp), a Universidade Estadual do Tocantins (Unitins) e a Ulbra Palmas. De acordo com a pedagoga e psicóloga Ângela Campos, que atua diretamente com o grupo, cada encontro é planejado com cuidado. “Algumas rodas acontecem com a presença dos responsáveis, outras são apenas com os adolescentes. Tudo depende da temática. Nosso objetivo é sempre fortalecer vínculos e construir pontes com o mundo lá fora”, explica.

Atualmente, 41 adolescentes estão em cumprimento de medida socioeducativa em meio aberto na capital. Quarenta e uma vidas em fase de reconstrução. Quarenta e uma chances de provar que um erro não precisa definir todo o futuro.

Um novo começo é possível

A cada encontro, uma lição: ninguém nasce destinado ao fracasso. Muitos desses jovens não tiveram a chance de escolher outro caminho — foram levados por circunstâncias maiores que eles. E, mesmo assim, continuam tentando. Cada palavra escutada, cada conversa aberta e cada gesto de acolhimento representam um passo rumo a uma vida diferente.

No NAI, não se fala apenas de medidas socioeducativas. Fala-se de recomeços. Fala-se de corações que, apesar de machucados, ainda batem forte pela chance de reescrever suas próprias histórias.

Fonte: ASCOM/Palmas

WhatsApp Facebook Twitter Email Baixar Imagem
  • Inês Theodoro

    Quem Somos Jornal Factual — Informação limpa. Jornalismo responsável. O Jornal Factual é um veículo digital independente, dedicado à cobertura criteriosa dos acontecimentos políticos, econômicos, sociais e culturais do Tocantins e do Brasil. Nascemos com um compromisso claro: entregar informação confiável, apurada e livre de interferências. Nosso trabalho se apoia em três pilares essenciais: Imparcialidade, Ética e Confiabilidade. No Jornal Factual, buscamos ser um ponto de equilíbrio em um ambiente digital carregado de ruído, polarização e desinformação. Somos Factual. Somos jornalismo que respeita você.

    Related Posts

    DPE-TO orienta sobre a responsabilidade dos genitores no pagamento de material escolar

    A Defensoria Pública do Estado do Tocantins (DPE-TO) orienta sobre a responsabilidade da(o) genitora(o) sobre a obrigação de contribuir com o pagamento do material escolar dos filhos, por se tratar…

    COMAM vive momento de reconstrução e aposta na união das associações, afirma presidente

    O Conselho Municipal de Associações de Moradores (COMAM) atravessa um período de reorganização institucional e busca retomar sua força política e representatividade em Palmas. A avaliação é da presidente da…

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

    You Missed

    NOVA ESPERANÇA CONTRA A DEMÊNCIA VASCULAR

    NOVA ESPERANÇA CONTRA A DEMÊNCIA VASCULAR

    DPE-TO orienta sobre a responsabilidade dos genitores no pagamento de material escolar

    DPE-TO orienta sobre a responsabilidade dos genitores no pagamento de material escolar

    COMAM vive momento de reconstrução e aposta na união das associações, afirma presidente

    COMAM vive momento de reconstrução e aposta na união das associações, afirma presidente

    Defensoria Pública já registra mais de 4,2 mil agendamentos jurídicos para 2026

    Defensoria Pública já registra mais de 4,2 mil agendamentos jurídicos para 2026

    O DESPERTAR NECESSÁRIO: O QUE ACONTECEU COM A ARTE?

    O DESPERTAR NECESSÁRIO: O QUE ACONTECEU COM A ARTE?

    Imagens que o regime não quer mostrar: Irã vive seu momento mais sombrio desde 1979

    Imagens que o regime não quer mostrar: Irã vive seu momento mais sombrio desde 1979