Investimentos previstos para ciência, tecnologia e inovação colocam uma pergunta no centro do debate: quanto do conhecimento produzido no Tocantins consegue chegar ao mercado, aos serviços públicos e à população?
O Tocantins está diante de uma das grandes questões para o seu futuro econômico: como transformar ciência e conhecimento em inovação, empregos, produtividade e melhoria dos serviços públicos?
A resposta passa necessariamente pelo volume de recursos destinados à pesquisa, mas não termina nele.
Em 2023, o programa estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação teve previsão orçamentária de R$ 28,53 milhões. Entre as ações previstas estavam o fomento a projetos de pesquisa científicos, tecnológicos e de inovação, o fortalecimento do sistema estadual de ciência e tecnologia, a modernização de infraestrutura de pesquisa e a difusão do conhecimento científico.
No planejamento para o período de 2024 a 2027, o Estado estabeleceu uma previsão de R$ 90,66 milhões para o programa de Ciência, Tecnologia e Inovação. Para 2024, estavam previstos R$ 21,08 milhões. O planejamento também estabeleceu metas para ampliar o número de bolsas concedidas e aumentar a quantidade de projetos de pesquisa e infraestrutura apoiados.
Os números mostram que existe uma estrutura pública de financiamento e planejamento para a área.
Mas eles também abrem uma segunda pergunta, ainda mais importante:
qual é o resultado produzido por esses investimentos?
A conta não termina no laboratório
O principal desafio da inovação não é apenas financiar uma pesquisa.
É fazer com que o conhecimento percorra todo o caminho entre o laboratório e a sociedade.
Uma descoberta científica pode permanecer restrita a uma publicação acadêmica. Outra pode evoluir para um protótipo, gerar uma patente, ser licenciada para uma empresa e finalmente transformar-se em um produto ou serviço.
Entre esses pontos existe um longo caminho.
Por isso, medir apenas a quantidade de pesquisas ou o número de bolsas não é suficiente para avaliar a eficiência de um ecossistema de inovação.
Também é preciso saber quantas tecnologias foram desenvolvidas, quantas patentes foram licenciadas, quantas empresas nasceram de pesquisas acadêmicas e quais soluções chegaram efetivamente ao setor produtivo ou à administração pública.
Onde está o gargalo?
No Tocantins, a investigação precisa avançar justamente sobre essa transição.
Quanto dinheiro chega ao pesquisador?
Quantos projetos conseguem avançar além da fase experimental?
Quantas pesquisas geram propriedade intelectual?
Quantas patentes chegam ao mercado?
Quantas startups ou empresas surgem a partir de pesquisas realizadas no Estado?
E uma pergunta ainda mais direta:
quanto a ciência consegue devolver à economia tocantinense em produtividade, empregos, renda e redução de custos?
Agronegócio pode ser uma das grandes fronteiras
A vocação econômica do Tocantins cria oportunidades particularmente importantes para a inovação aplicada ao agronegócio.
Tecnologias de agricultura de precisão, sensores, inteligência artificial, bioinsumos, monitoramento climático, irrigação inteligente e sistemas de integração entre lavoura, pecuária e floresta podem transformar conhecimento científico em ganho direto de produtividade.
A questão é descobrir quantas dessas soluções estão sendo desenvolvidas localmente e quantas conseguem chegar ao produtor.
A mesma lógica pode ser aplicada ao meio ambiente.
Tecnologias de geoprocessamento, monitoramento de queimadas, análise de recursos hídricos e acompanhamento de áreas agrícolas podem ajudar o Estado a enfrentar problemas ambientais enquanto criam oportunidades econômicas.
Saúde e gestão pública também podem se beneficiar
Outra fronteira está na utilização da tecnologia para melhorar os serviços públicos.
Inteligência artificial, análise de dados, sistemas de gestão e automação podem ser utilizados para apoiar áreas como saúde, educação, arrecadação e planejamento.
O próprio Estado possui um planejamento específico para tecnologia da informação e comunicação para o período de 2024 a 2027. O documento da Agência de Tecnologia da Informação destaca a transformação digital, a melhoria dos gastos públicos e a utilização da tecnologia para aprimorar os serviços prestados ao cidadão.
Isso cria uma oportunidade para uma pergunta objetiva:
quanto da tecnologia desenvolvida ou adquirida pelo poder público efetivamente reduz custos e melhora o atendimento ao cidadão?
O desafio de criar um ecossistema
Outro ponto importante é a ligação entre universidades, governo e empresas.
A ciência pode produzir conhecimento. A empresa pode transformar esse conhecimento em produto. O governo pode criar condições para que essa relação aconteça.
Quando esses três setores trabalham de forma desconectada, a pesquisa corre o risco de permanecer dentro da academia e o setor produtivo continua importando soluções desenvolvidas em outros lugares.
O desafio, portanto, não é simplesmente aumentar o investimento.
É construir um ambiente em que o investimento consiga produzir conhecimento, tecnologia, negócios e impacto social.
A nova régua da inovação
A avaliação do sistema de ciência e tecnologia do Tocantins poderia ir além da quantidade de artigos publicados ou projetos financiados.
Uma nova régua precisaria observar indicadores como:
- pesquisas concluídas;
- patentes depositadas e concedidas;
- patentes licenciadas;
- startups e empresas derivadas de pesquisas;
- tecnologias transferidas para empresas;
- soluções utilizadas pelo poder público;
- empregos de alta qualificação gerados;
- redução de custos proporcionada por novas tecnologias;
- aumento de produtividade;
- recursos privados atraídos para pesquisa e inovação.
Essa é a diferença entre produzir ciência e transformar ciência em desenvolvimento.
A pergunta que fica
Os dados oficiais mostram que o Tocantins possui planejamento e recursos destinados à ciência, tecnologia e inovação.
Agora começa a parte mais importante da investigação:
o que aconteceu depois que o dinheiro foi investido?
A resposta exige cruzar orçamento, execução financeira, projetos financiados, resultados científicos, patentes, empresas, startups e aplicações práticas.
É nessa distância entre o recurso público investido e o resultado entregue à sociedade que está uma das principais histórias a serem contadas sobre a inovação no Tocantins.
Porque a verdadeira medida da ciência não está apenas no que um Estado consegue pesquisar.
Está também no que ele consegue transformar.
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