Por Inês Theodoro | Jornal Factual
O mundo está entrando em uma fase na qual a segurança deixou de ser apenas uma questão militar. Passou a envolver abastecimento, energia, infraestrutura, estabilidade política, proteção da população e capacidade de resposta dos governos diante de crises.
Os acontecimentos de 3 de novembro de 2026 ajudam a compreender essa transformação. Nos Estados Unidos, os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, impondo uma derrota política expressiva ao presidente Donald Trump. Na Europa, a preparação da população para situações de emergência integra uma estratégia institucional de resiliência civil. No Brasil, o Senado aprovou por unanimidade a PEC da Segurança Pública, ampliando a integração entre União, estados e municípios.
São acontecimentos distintos, com origens e objetivos próprios. Entretanto, todos revelam uma questão central: até que ponto os Estados estão preparados para enfrentar um cenário de instabilidade que ultrapassa as fronteiras nacionais?
WASHINGTON: A DERROTA DE TRUMP MUDA O EQUILÍBRIO DE PODER
As eleições de meio de mandato realizadas em 3 de novembro produziram uma mudança significativa na política norte-americana. Os democratas conquistaram maioria nas duas Casas do Congresso, retirando dos republicanos o controle legislativo que sustentava a agenda do governo Trump.
O resultado representa mais do que uma derrota eleitoral. Trata-se de um revés institucional para um presidente que terá de enfrentar uma oposição com capacidade ampliada de fiscalização, investigação e resistência às suas iniciativas legislativas.
As pesquisas de boca de urna da CBS News apontaram aprovação presidencial de aproximadamente 38% no dia da votação. O resultado eleitoral ocorreu em meio ao descontentamento com o custo de vida, às preocupações econômicas, às tarifas comerciais e às tensões envolvendo o Irã.
Entre os resultados de maior repercussão está a eleição de James Talarico para o Senado pelo Texas, um estado historicamente dominado pelos republicanos. Em Michigan, Abdul El-Sayed também conquistou uma cadeira no Senado, tornando-se o primeiro senador muçulmano da história dos Estados Unidos.
A vitória democrata abre uma nova etapa de disputa entre o Executivo e o Legislativo.
A partir de 3 de janeiro de 2027, quando o novo Congresso tomar posse, Trump terá de administrar um ambiente político muito mais hostil. Investigações parlamentares, questionamentos sobre decisões do governo e dificuldades para aprovar projetos poderão marcar a segunda metade de seu mandato.
Isso não significa, porém, que o presidente tenha perdido seus poderes constitucionais. A política externa, a condução das Forças Armadas e diversos instrumentos executivos continuam sob sua autoridade, embora sujeitos a limites legais e institucionais.
O resultado das urnas, portanto, não encerra a disputa política americana. Ele altera o campo em que essa disputa será travada.
ORIENTE MÉDIO: A DISPUTA NÃO DEPENDE APENAS DO CONGRESSO
A mudança de maioria em Washington também produz consequências para a política externa americana, especialmente em um momento de tensão com o Irã.
O intervalo entre as eleições e a posse do novo Congresso cria uma janela de transição institucional. Durante aproximadamente dois meses, a composição legislativa eleita ainda não estará em exercício.
Esse período merece atenção porque decisões executivas em matéria de política externa e segurança nacional não ficam automaticamente suspensas durante a transição.
As tensões envolvendo Washington, Teerã e Israel continuam sendo um dos principais fatores de instabilidade internacional.
Um dos pontos estratégicos dessa disputa é Pickaxe Mountain, instalação subterrânea iraniana associada ao programa nuclear do país. Imagens de satélite e análises especializadas têm acompanhado a construção e as medidas de proteção da estrutura.
O local ganhou importância diante das ameaças americanas de novos ataques contra instalações ligadas ao programa nuclear iraniano.
Entretanto, é necessário distinguir fatos comprovados de alegações de inteligência. A presença de determinados equipamentos ou materiais nucleares no interior da estrutura não pode ser tratada como confirmação pública definitiva.
O problema estratégico permanece: uma eventual escalada militar poderia atingir não apenas instalações nucleares, mas também bases militares, infraestrutura energética, rotas comerciais e interesses de países vizinhos.
Uma mudança na composição do Congresso americano pode alterar o ambiente político para a condução dessa crise, mas não significa que os democratas assumirão automaticamente o controle da política externa ou conseguirão impedir decisões militares do presidente.
EUROPA: QUANDO A PREPARAÇÃO CIVIL SE TORNA UMA QUESTÃO DE ESTADO
Enquanto Washington enfrenta uma mudança de poder político, a Europa trabalha para fortalecer sua capacidade de resistir a crises.
A Comissão Europeia apresentou, em março de 2025, a Estratégia da União de Preparação, fundamentada, entre outros elementos, no relatório elaborado pelo ex-presidente finlandês Sauli Niinistö.
Uma das recomendações mais conhecidas é que a população mantenha condições de autossuficiência por pelo menos 72 horas em situações de emergência.
Água potável, alimentos não perecíveis, medicamentos essenciais, lanternas, meios de comunicação e dinheiro em espécie integram as orientações de preparação.
A recomendação não significa que a Comissão esteja anunciando uma guerra iminente. O objetivo é preparar os cidadãos para diferentes cenários, incluindo apagões, ataques cibernéticos, interrupções no abastecimento, desastres naturais e outras situações que possam comprometer serviços essenciais.
Mas existe um aspecto político e estratégico que merece atenção.
A Europa reconhece que suas infraestruturas são vulneráveis e que uma crise contemporânea pode começar sem uma declaração formal de guerra.
Uma interrupção prolongada de energia, um ataque contra redes de comunicação, a sabotagem de instalações estratégicas ou uma ruptura no abastecimento podem produzir consequências profundas para a vida cotidiana.
A preparação civil, portanto, deixou de ser tratada apenas como uma responsabilidade individual. Passou a integrar o planejamento de segurança dos governos.
O recado institucional é claro: não basta possuir forças militares modernas se a sociedade não consegue manter serviços essenciais durante uma crise.
BRASIL: PEC DA SEGURANÇA AMPLIA A COORDENAÇÃO DO ESTADO
No Brasil, o Senado aprovou em 3 de novembro a Proposta de Emenda à Constituição 18/2025, conhecida como PEC da Segurança Pública.
O texto recebeu 73 votos favoráveis no primeiro turno e 75 no segundo, sem votos contrários.
A aprovação representa uma mudança importante na organização constitucional da segurança pública brasileira.
Entre as principais medidas estão a inclusão do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) na Constituição, a ampliação da integração entre os entes federativos, novas atribuições para a Polícia Federal e para a Polícia Rodoviária Federal e a possibilidade de criação de polícias municipais de natureza civil.
A proposta também estabelece mecanismos de proteção e financiamento para fundos nacionais ligados à segurança pública e ao sistema penitenciário.
O governo Lula defende a mudança como instrumento para ampliar a capacidade de coordenação nacional no combate às organizações criminosas.
Entretanto, a aprovação da PEC não encerra as discussões sobre o modelo de segurança que o país pretende adotar.
A ampliação da participação da União, a distribuição de competências entre os entes federativos, o financiamento das forças policiais e os mecanismos de controle institucional precisarão ser acompanhados de perto.
O presidente Lula também anunciou a intenção de criar um Ministério da Segurança Pública após a aprovação da proposta. Isso, contudo, não significa que a nova estrutura ministerial tenha sido automaticamente instituída pela votação.
A unanimidade no Senado merece atenção política. Em um Congresso marcado por profundas divergências, uma mudança constitucional dessa dimensão conseguiu reunir votos de diferentes correntes partidárias.
Mas unanimidade parlamentar não significa ausência de controvérsia sobre os efeitos futuros da medida.
A questão central será saber se a ampliação da coordenação estatal produzirá melhores resultados na prevenção e no combate ao crime ou se encontrará dificuldades na implementação, na divisão de responsabilidades e na fiscalização das novas atribuições.
O PARALELO INTERNACIONAL: SEGURANÇA, PODER E LIMITES INSTITUCIONAIS
A reorganização das estruturas de segurança não é um fenômeno exclusivo do Brasil.
Países de diferentes regiões estão revendo seus mecanismos de proteção, coordenação e resposta a ameaças internas e externas.
Entretanto, é necessário evitar comparações simplistas. A criação ou ampliação de estruturas nacionais de segurança em um país democrático não pode ser automaticamente equiparada à experiência de centralização policial da Venezuela.
Os contextos constitucionais, os mecanismos de fiscalização, a independência institucional e as condições políticas são diferentes.
Ainda assim, existe uma questão que merece ser observada: quando o Estado amplia suas atribuições em nome da segurança, quais garantias asseguram que esse poder continuará submetido à Constituição, ao controle democrático e aos direitos fundamentais?
Segurança pública e liberdade não são conceitos incompatíveis. O desafio é impedir que a primeira seja utilizada como justificativa para enfraquecer a segunda.
BRASIL E ESTADOS UNIDOS: A DISPUTA GEOPOLÍTICA CONTINUA
A mudança de maioria no Congresso americano também merece acompanhamento pelo governo brasileiro.
A política externa dos Estados Unidos não depende exclusivamente do Legislativo. A administração presidencial dispõe de instrumentos executivos e legais que podem influenciar relações comerciais, medidas tarifárias, sanções econômicas e concessões de vistos.
Por isso, a vitória democrata não significa necessariamente uma mudança imediata na relação entre Washington e Brasília.
O governo brasileiro precisará acompanhar os desdobramentos da política americana, especialmente diante das tensões comerciais, das disputas diplomáticas e das diferentes posições dos dois países em questões internacionais.
Também será necessário observar como setores políticos brasileiros se relacionarão com a nova configuração de poder em Washington.
A diplomacia exige cautela: relações entre Estados não podem ser reduzidas às alianças pessoais ou partidárias de seus governantes.
O QUE ESTÁ EM JOGO
Os acontecimentos de novembro não comprovam a existência de um plano internacional coordenado para ampliar o controle estatal. Seria precipitado afirmar isso.
Mas revelam uma transformação concreta na maneira como governos e instituições estão enfrentando os riscos contemporâneos.
Nos Estados Unidos, a disputa pelo poder legislativo altera a capacidade de sustentação política do governo Trump.
Na Europa, a preparação civil demonstra que a proteção da população e das infraestruturas passou a ser tratada como componente estratégico da segurança continental.
No Brasil, a PEC da Segurança Pública amplia a estrutura constitucional de coordenação do Estado no enfrentamento à criminalidade.
O ponto de convergência não está em uma suposta articulação entre esses governos, mas no reconhecimento de que os modelos tradicionais de segurança já não respondem sozinhos aos desafios atuais.
A instabilidade deixou de ser apenas militar. Ela também é econômica, tecnológica, energética, institucional e informacional.
E existe uma pergunta que precisa ser feita em todas essas democracias: até onde o Estado deve ampliar seu poder para proteger a sociedade, sem ultrapassar os limites que existem justamente para proteger essa mesma sociedade do poder excessivo?
Essa é uma das grandes questões políticas e geopolíticas do nosso tempo.





