A foto que pode entregar sua digital: o risco invisível do sinal de paz

Pesquisa japonesa mostrou que imagens de dedos capturadas a cerca de três metros podem conter informações capazes de revelar padrões de impressão digital — um alerta sobre os novos riscos da exposição biométrica nas redes sociais

O gesto parece inofensivo: dois dedos levantados, um sorriso e uma fotografia para as redes sociais. O tradicional sinal de paz ✌️, porém, pode carregar uma informação altamente sensível: características da impressão digital de quem aparece na imagem.

O risco foi demonstrado por pesquisadores do Instituto Nacional de Informática do Japão (NII), em pesquisas lideradas pelo professor Isao Echizen.

O alerta científico

O trabalho realizado pelo grupo japonês mostrou que, em determinadas condições, informações de impressão digital podem ser extraídas de fotografias digitais dos dedos.

O experimento

Em um dos experimentos, os pesquisadores conseguiram obter informações necessárias para a autenticação por impressão digital a partir de imagens capturadas a aproximadamente três metros de distância, utilizando uma câmera digital de alta resolução.

O resultado não significa que qualquer fotografia publicada nas redes sociais possa ser transformada automaticamente em uma impressão digital funcional. Distância, iluminação, foco, resolução, posição dos dedos e qualidade da imagem são fatores determinantes.

Mas a pesquisa demonstrou algo importante: a impressão digital pode deixar de ser apenas uma característica capturada por um sensor de contato e passar a ser também uma informação potencialmente extraível de uma fotografia.

Uma nova superfície de ataque

Tradicionalmente, a preocupação com impressões digitais estava relacionada a superfícies físicas: objetos tocados, documentos, equipamentos ou sensores.

A fotografia acrescenta outra possibilidade.

Uma câmera pode registrar características biométricas sem que a pessoa perceba que seus dedos estão fornecendo esse tipo de informação.

E quanto mais sofisticadas ficam as câmeras e as ferramentas de processamento de imagens, maior é a capacidade de analisar detalhes presentes em uma fotografia.

O próprio laboratório de Echizen desenvolveu o BiometricJammer, uma técnica destinada a dificultar a obtenção remota de informações de impressão digital por fotografias, preservando, nas condições pesquisadas, a possibilidade de utilização do dedo em sensores de contato.

Senhas mudam. Biometria não.

É aqui que está o principal problema.

Se uma senha vaza, você pode trocá-la. Se uma característica biométrica é comprometida, você não pode simplesmente substituí-la.

Essa diferença faz da biometria um tipo particularmente sensível de informação.

Impressões digitais são utilizadas em diferentes sistemas de autenticação, inclusive em dispositivos móveis e serviços digitais. Quando utilizadas como parte da segurança, elas oferecem praticidade — mas não devem ser confundidas com uma proteção absolutamente inviolável.

O que é spoofing biométrico?

Um dos riscos associados à exposição de dados biométricos é o chamado spoofing biométrico, ou ataque de apresentação.

Nesse tipo de ataque, o fraudador tenta apresentar ao sistema uma representação artificial de uma característica biométrica para fazê-lo acreditar que está diante do usuário legítimo.

A possibilidade técnica de extrair informações de uma fotografia, portanto, não significa que o criminoso automaticamente terá acesso ao celular, ao banco ou a qualquer outro sistema.

Existe uma diferença importante entre obter informações de uma impressão digital e conseguir enganar um sistema biométrico específico.

Foto não é chave universal

Uma fotografia contendo características de uma digital não funciona como uma senha universal.

O risco depende de uma série de fatores.

FatorImpacto na segurança
ResoluçãoQuanto mais detalhes a imagem preserva, maior pode ser a quantidade de informação disponível para análise.
IluminaçãoLuz, sombras e reflexos podem facilitar ou dificultar a identificação dos padrões.
ÂnguloA posição dos dedos em relação à câmera interfere na qualidade das informações capturadas.
ProcessamentoAlgoritmos podem ajudar a recuperar e analisar detalhes que já existem na imagem.
Sistema biométricoDiferentes dispositivos e serviços utilizam mecanismos distintos de verificação e proteção.

E onde entra a inteligência artificial?

A inteligência artificial acrescenta uma nova camada à discussão.

Algoritmos modernos conseguem reduzir ruídos, aumentar contraste, identificar padrões e aprimorar determinadas características de uma imagem.

Mas existe uma diferença fundamental entre recuperar informações que já estão presentes em uma fotografia e simplesmente inventar uma impressão digital que nunca foi registrada.

Uma imagem extremamente borrada não se transforma magicamente em uma cópia perfeita da digital de uma pessoa apenas porque recebeu processamento por inteligência artificial.

O problema real é mais simples — e justamente por isso merece atenção: quanto mais informação biométrica estiver disponível em uma fotografia, maior pode ser a superfície de ataque para técnicas de análise e reprodução.

Como reduzir o risco

Não é necessário abandonar fotografias ou deixar de fazer o tradicional sinal de paz.

Mas alguns cuidados podem reduzir a exposição desnecessária.

1. Evite expor as pontas dos dedos em imagens de alta resolução

Principalmente quando os dedos aparecem muito próximos da câmera e com grande nitidez.

2. Use mais de uma camada de segurança

Em serviços sensíveis, como aplicativos bancários, utilize as opções adicionais de proteção disponibilizadas pelo serviço, como PIN, senha ou autenticação multifator.

A biometria pode ser uma camada de conveniência e segurança, mas não precisa ser a única.

3. Pense antes de entregar imagens biométricas

Tenha cuidado com aplicativos e serviços que solicitam fotografias das mãos, do rosto ou de outros elementos biométricos.

Antes de fornecer a imagem, procure entender por que ela está sendo solicitada, como será armazenada e para que finalidade será utilizada.

O novo problema da privacidade

Durante anos, a principal recomendação de segurança digital foi simples: proteja sua senha.

Hoje, essa orientação já não é suficiente.

O rosto, a voz, os olhos e as impressões digitais também podem funcionar como identificadores.

E, ao contrário de uma senha, muitos desses elementos fazem parte do próprio corpo.

Uma fotografia publicada aparentemente sem importância pode carregar informações que o usuário sequer percebe.

O sinal de paz não é, por si só, uma ameaça.

O alerta é outro:

uma câmera pode registrar muito mais sobre uma pessoa do que aquilo que ela conscientemente decidiu compartilhar.

E existe uma diferença fundamental entre perder uma senha e expor uma característica biométrica:

A senha pode ser trocada. O dedo, não.

Fontes: Instituto Nacional de Informática do Japão (NII); pesquisas do grupo de Isao Echizen sobre extração e proteção de informações biométricas; National Institute of Standards and Technology (NIST), sobre ameaças de spoofing biométrico e autenticação multifator.

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Inês Theodoro

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