Fortaleza concentra cabos submarinos que conectam o Brasil à internet mundial

Infraestrutura instalada na Praia do Futuro conecta o país a redes internacionais de dados e levanta questões sobre redundância, continuidade dos serviços e proteção de ativos estratégicos.

FORTALEZA (CE) — Uma parcela essencial da conexão do Brasil com a internet mundial passa pelo fundo do mar. Cabos submarinos de fibra óptica transportam dados entre continentes e sustentam serviços como telecomunicações, computação em nuvem, transações financeiras e sistemas digitais. Em Fortaleza, a Praia do Futuro se consolidou como um dos principais pontos de conexão dessa infraestrutura no país.

O peso dessa rede vai além da velocidade de acesso à internet. A concentração de cabos em determinadas regiões também levanta questões sobre segurança, manutenção e alternativas para manter a conectividade em caso de falhas.

Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), cerca de 99% do tráfego internacional de dados do Brasil passa por cabos submarinos. O percentual foi informado pela agência em maio de 2026, durante a abertura de uma discussão sobre a atualização das regras aplicáveis a essa infraestrutura.

Quanto do tráfego passa por Fortaleza?

Fortaleza ocupa uma posição estratégica na rede internacional de telecomunicações. A cidade recebe cabos que conectam o Brasil a redes internacionais, incluindo rotas que ligam o país à Europa e aos Estados Unidos.

Em entrevista à BBC News Brasil, reproduzida pelo portal Olhar Digital em junho de 2025, Antonio Moreiras, do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), estimou que Fortaleza concentra perto de 90% do tráfego internacional de dados do Brasil.

A estimativa deve ser entendida como uma declaração atribuída ao especialista, e não como um indicador oficial atualizado para 2026. O número também não significa que todo o tráfego internacional brasileiro passe exclusivamente pela capital cearense.

A quantidade de cabos e sistemas conectados à cidade varia conforme a fonte e o critério utilizado, como cabos físicos, sistemas submarinos, ramificações e conexões em operação. Por isso, sem um levantamento oficial atualizado e com metodologia clara, é mais seguro destacar a importância estratégica de Fortaleza sem fixar um total definitivo.

Por que Fortaleza se tornou um ponto estratégico?

A localização geográfica ajuda a explicar a relevância da capital cearense. Sua posição no Atlântico favorece conexões entre a América do Sul, a Europa e a América do Norte, tornando a cidade um ponto de interesse para empresas que operam redes internacionais de telecomunicações.

Os cabos submarinos transportam grandes volumes de dados por meio de fibras ópticas instaladas no leito marinho. Quando chegam à costa, conectam-se a estruturas terrestres que encaminham as informações para redes de telecomunicações, centros de dados e outros pontos de distribuição.

Essa infraestrutura é fundamental para atividades cotidianas que dependem de comunicação internacional, mesmo quando o usuário não percebe o caminho percorrido pelas informações.

A importância econômica também tende a crescer com a expansão dos serviços digitais e dos centros de processamento de dados. A presença de rotas internacionais pode favorecer investimentos, mas os benefícios dependem de fatores como capacidade disponível, demanda, custos e integração com outras redes.

O que uma falha nos cabos poderia afetar?

Danos em cabos submarinos podem ocorrer por acidentes, atividades de pesca, ancoragem de embarcações ou outros incidentes. Dependendo da localização do problema, da capacidade das rotas alternativas e da resposta das operadoras, uma interrupção pode provocar degradação da conexão, aumento da latência ou redirecionamento do tráfego.

Em reportagem publicada em março de 2025, o portal TeleTime ouviu representantes da empresa Blue Marine sobre os riscos para esse tipo de infraestrutura no Brasil. Os executivos apontaram acidentes e atividades marítimas como fatores de preocupação e discutiram a vulnerabilidade associada à concentração de conexões em Fortaleza.

Essas avaliações refletem a perspectiva de profissionais do setor. Elas não comprovam a ocorrência de um ataque deliberado nem significam que uma falha localizada provocaria necessariamente um apagão nacional.

O impacto de uma interrupção depende de quais cabos forem afetados, da disponibilidade de rotas alternativas e da capacidade das redes de redistribuir o tráfego. A existência de caminhos redundantes é um dos fatores que ajudam a reduzir a dependência de uma única conexão.

Proteção e redundância entram no debate

A relevância dos cabos submarinos para a conectividade e para a economia levou órgãos públicos a discutir medidas de proteção e aperfeiçoamento da regulação.

Em fevereiro de 2025, a Anatel recebeu do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI) um relatório de recomendações sobre cabos submarinos. Entre os temas discutidos estavam a segurança e a resiliência da infraestrutura.

A Marinha do Brasil também realizou exercícios voltados à proteção desses ativos. Em novembro de 2025, promoveu em Fortaleza uma atividade que simulou uma situação envolvendo uma embarcação suspeita nas proximidades de um cabo submarino. A iniciativa fez parte dos esforços de treinamento e cooperação para proteger estruturas consideradas estratégicas.

Em junho de 2026, a Marinha participou ainda de um workshop sobre proteção de cabos submarinos, realizado em Niterói (RJ), com representantes de diferentes setores. A realização de encontros e exercícios mostra que o tema vem sendo tratado como uma questão de segurança e continuidade dos serviços.

Anatel discute regras; projeto de lei continua em tramitação

Em maio de 2026, a Anatel abriu uma tomada de subsídios para reunir contribuições sobre a atualização das regras aplicáveis aos cabos submarinos. A discussão abrange segurança física e cibernética, governança, monitoramento de incidentes e diversificação geográfica dos pontos de chegada dos cabos.

A iniciativa regulatória da agência é diferente da proposta de criação de uma política nacional para o setor. A Anatel informou que a tomada de subsídios é uma etapa de coleta de informações para subsidiar estudos e possíveis mudanças nas normas.

Na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 270/2025 propõe instituir a Política Nacional de Infraestruturas de Cabos Subaquáticos. A proposta recebeu parecer favorável com substitutivo em maio de 2026 e, conforme o registro legislativo consultado, estava pronta para pauta na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional. Em junho, a comissão aprovou um requerimento para realizar audiência pública sobre o projeto.

Até a última atualização consultada, a proposta ainda estava em tramitação e não deveria ser apresentada como lei em vigor.

Novos projetos podem ampliar as conexões

A infraestrutura que chega a Fortaleza também está relacionada a projetos de expansão das redes internacionais.

Em janeiro de 2026, foi anunciado o projeto Synapse, da V.tal, para instalar um cabo submarino entre os Estados Unidos e o litoral paulista, com uma ramificação planejada para Fortaleza. O projeto foi divulgado com previsão de implantação ao longo dos anos seguintes. Não foi localizada confirmação pública suficiente para afirmar que as obras da ramificação já começaram.

Outra iniciativa envolve a EllaLink, operadora do cabo que conecta Fortaleza a Sines, em Portugal. Em reportagem publicada em 6 de outubro de 2026, o Diário do Nordeste informou que a empresa planeja estender a infraestrutura até a Guiana Francesa, em um trecho de aproximadamente 2,1 mil quilômetros, com conclusão prevista até o fim do ano.

Segundo a reportagem, a expansão deve criar uma conexão adicional entre a região caribenha, o Brasil e a Europa. Trata-se de uma extensão de uma infraestrutura existente, e não da instalação de um novo cabo transatlântico independente com chegada inicial em Fortaleza.

Uma infraestrutura essencial, com desafios de proteção

A posição de Fortaleza na rede de cabos submarinos evidencia a importância da infraestrutura física que sustenta a internet. Embora o acesso seja percebido como um serviço digital, a circulação internacional de dados depende de cabos, pontos de aterragem, instalações terrestres e redes capazes de distribuir o tráfego.

O desafio é ampliar a capacidade de conexão e, ao mesmo tempo, reduzir vulnerabilidades associadas à concentração geográfica. Diversificar rotas, aprimorar a regulação e fortalecer a cooperação entre órgãos públicos e empresas são caminhos em discussão para aumentar a resiliência dessa estrutura.

A questão central não é apenas quantos cabos chegam à Praia do Futuro, mas também quanto a rede consegue manter os serviços funcionando quando uma rota apresenta problemas e quais medidas podem tornar a conexão internacional do Brasil mais segura e resiliente.

Fontes: Anatel — tráfego internacional e discussão regulatória; Anatel — relatório de recomendações sobre cabos submarinos; Câmara dos Deputados — tramitação do PL 270/2025; Olhar Digital — Fortaleza como hub de internet; TeleTime — riscos para cabos submarinos; Diário do Nordeste — extensão do cabo da EllaLink.

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Inês Theodoro

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