Quebradeiras de Coco Babaçu: Guardiãs de um Saber Ancestral no Bico do Papagaio

As mãos calejadas e os rostos marcados pelo tempo revelam trajetórias de luta e resistência. São mulheres conhecidas como quebradeiras de coco babaçu, guardiãs de um saber ancestral que atravessa gerações. Elas mantêm viva a cultura no Bico do Papagaio, extremo norte do Tocantins, transformando o coco em sustento, arte e memória.

Nesta semana, em Augustinópolis, o Governo do Tocantins, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), deu mais um passo para reconhecer e valorizar essas mulheres: realizou o cadastro para emissão da Carteira Nacional do Artesão e o mapeamento das quebradeiras de coco.


Cadastro e Mapeamento

O cadastro foi conduzido por Núbia Cursino, coordenadora do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB) no Tocantins, que destacou:

“Essa é uma ferramenta fundamental para valorizar e reconhecer o trabalho artesanal. A Carteira Nacional do Artesão garante acesso a políticas públicas, participação em feiras e visibilidade à produção cultural dessas mulheres.”

Ao todo, 32 artesãos participaram do registro.

O mapeamento das quebradeiras ficou a cargo da analista técnica da Secult, Ana Elisa Martins, que identificou 40 mulheres atuantes no ofício.

“Este levantamento é essencial para compreender a realidade dessas comunidades, fortalecer a cadeia produtiva do babaçu e valorizar os saberes tradicionais.”


Defensoria nos Babaçuais

A ação integra o Projeto Interinstitucional Defensoria nos Babaçuais, desenvolvido pela Defensoria Pública do Estado do Tocantins. O defensor público-geral Pedro Alexandre ressaltou que as quebradeiras compõem a identidade cultural do Tocantins:

“A Defensoria Pública reafirma o compromisso de atender quem mais precisa, mesmo nas regiões mais distantes, como o Bico do Papagaio.”

A defensora Kênia Martins Pimenta Fernandes, coordenadora do Núcleo Agrário e Ambiental, destacou que o projeto aproxima a Defensoria do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu:

“Estas mulheres têm uma luta histórica de resistência, e é fundamental que a Cultura dê respaldo a essa tradição.”

Maria Silvânia, coordenadora regional do MIQCB, começou a quebrar coco aos sete anos e reforça a dimensão coletiva da luta:

“O que sonhamos aqui também é sonhado nos demais babaçuais, porque nossa luta é coletiva e interestadual.”


Histórias de Vida e Resistência

Entre as participantes, cada mulher traz um universo de experiências.

Maria do Socorro Teixeira Lima, de Praia Norte:

“Comecei a quebrar coco para sobreviver. Minha mãe ensinou todos os filhos a viver desse trabalho.”

Raimunda Sousa Vieira, de Buriti:

“Aos cinco anos, comecei a acompanhar meu pai na roça, e de lá para cá nunca parei.”

Rosalva Silva Gomes, de Imperatriz (MA), apresentou suas criações, iniciadas com um simples chaveiro, e aperfeiçoadas com o tempo.

Em Carrasco Bonito, no povoado Centro do Firmino, a Secult acompanhou o trabalho coletivo de catação e quebra do coco, realizado em um barraco de palha.

Francisca Maria da Conceição Cruz afirma:

“O que conseguimos vem do coco: pão, café, carne, roupa, remédio, energia… tudo o que precisamos para viver.”

Eliene Maria Azevedo, que aprendeu com a mãe aos dez anos, e Maria José de Morais, de 91 anos, reforçam que a tradição se mantém viva, passada de geração em geração.

Ana Lúcia Dias da Conceição acrescenta:

“Criei três filhos quebrando coco e só vou parar quando Deus permitir.”

Dona Ivonete Saraiva da Silva, iniciada aos oito anos, resume:

“Tenho muito orgulho dessa trajetória.”


Escuta Coletiva e Políticas Públicas

O evento em Augustinópolis também promoveu uma escuta coletiva com representantes da Secult, Defensoria Pública, Ministério Público do Trabalho, Incra, Ibama e Sepot, entre outros.

Ana Elisa Martins reforçou:

“Além do mapeamento das quebradeiras, nossa participação tem o objetivo de reunir informações para direcionar políticas públicas de Cultura, garantindo que iniciativas como o segundo ciclo da Política Nacional Aldir Blanc cheguem efetivamente às quebradeiras de coco.”

Entre histórias de suor, arte e resistência, o evento celebra mais do que um cadastro ou um mapeamento: homenageia a força de mulheres que transformam o babaçu em sustento, tradição e memória viva do Tocantins.http://jornalfactual.com.br

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    Inês Theodoro

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