BRICS em Nova Délhi: o bloco que desafia o Ocidente — mas ainda tenta provar que consegue governar uma nova ordem mundial

Reunião em Nova Délhi expõe ambições do bloco de reduzir a dependência do Ocidente, enquanto rivalidades internas e desafios estruturais revelam os limites da nova força geopolítica emergente.

A reunião dos chanceleres do BRICS em Nova Délhi acontece em um momento delicado para o planeta. Em meio a guerras regionais, disputas comerciais, polarização política e desgaste das instituições internacionais, o bloco ampliado tenta se consolidar como a principal força de contestação à hegemonia ocidental.

O que antes era visto apenas como um agrupamento econômico de países emergentes agora opera em outra dimensão: a geopolítica estratégica.

E a pergunta central já não é mais se o BRICS cresceu.

A pergunta agora é:
o bloco realmente possui capacidade para construir uma nova arquitetura global — ou ainda funciona mais como uma aliança de insatisfeitos contra o sistema liderado pelos Estados Unidos?

O BRICS deixou de ser um símbolo econômico

Durante anos, o BRICS foi tratado como um conceito financeiro usado para identificar economias emergentes promissoras.

Esse período acabou.

Hoje, o grupo atua como um polo político e estratégico que busca reduzir a dependência mundial do eixo Washington-Bruxelas.

A ampliação recente do bloco deixou isso evidente.

Com novos integrantes produtores de energia e influência regional crescente, o BRICS passou a discutir:

  • sistemas alternativos de pagamento;
  • redução da dependência do dólar;
  • fortalecimento do comércio em moedas locais;
  • ampliação do Novo Banco de Desenvolvimento;
  • criação de infraestrutura financeira paralela;
  • reorganização da governança global.

Na prática, o bloco tenta criar alternativas ao sistema internacional moldado pelo Ocidente após a Segunda Guerra Mundial.

A batalha real não é militar — é sistêmica

Grande parte da população ainda associa hegemonia global apenas a exércitos ou armas nucleares.

Mas o verdadeiro poder internacional moderno opera em estruturas invisíveis.

O domínio ocidental não foi construído apenas com força militar, mas com controle de sistemas que sustentam o funcionamento do planeta:

  • dólar como moeda global;
  • sistema SWIFT;
  • seguros marítimos;
  • agências de classificação de risco;
  • propriedade intelectual;
  • padrões tecnológicos;
  • cabos submarinos;
  • infraestrutura digital;
  • mercados financeiros profundos;
  • redes logísticas globais.

Essa é a verdadeira espinha dorsal da ordem internacional contemporânea.

E é justamente aí que o BRICS encontra seu maior desafio.

O dilema da desdolarização

Reduzir a dependência do dólar virou uma obsessão estratégica dentro do bloco.

Mas existe uma realidade frequentemente ignorada no debate público:
uma moeda global não sobrevive apenas por imposição política.

Ela depende de confiança sistêmica.

O dólar permanece dominante porque reúne:

  • liquidez;
  • previsibilidade;
  • segurança jurídica;
  • estabilidade institucional;
  • profundidade financeira;
  • capacidade militar de proteção das rotas comerciais.

O BRICS tenta criar alternativas, mas ainda enfrenta obstáculos estruturais severos.

As moedas dos países do bloco sofrem com:

  • volatilidade;
  • controles de capital;
  • instabilidade política;
  • baixa integração financeira;
  • desconfiança internacional.

Na prática, o grupo ainda possui poder para questionar o sistema atual —
mas não demonstrou plenamente capacidade para substituí-lo.

O maior problema do BRICS está dentro dele

Existe um paradoxo central no bloco:
seus membros estão unidos pela insatisfação com a ordem atual,
mas não necessariamente concordam sobre qual ordem desejam construir.

A maior tensão interna envolve China e Índia.

Pequim vê o BRICS como uma plataforma de projeção estratégica global.

Nova Délhi, por outro lado, teme que o grupo se transforme em uma esfera excessivamente dependente da influência chinesa.

A Índia quer um mundo multipolar —
mas não um mundo centrado em Pequim.

Esse conflito silencioso virou um dos principais freios internos do bloco.

Enquanto isso:

  • Rússia utiliza o BRICS como ferramenta de sobrevivência geopolítica diante das sanções ocidentais;
  • Irã busca escapar do isolamento internacional;
  • Brasil tenta equilibrar relações entre China, Estados Unidos e Europa;
  • outros membros enxergam no grupo principalmente uma oportunidade econômica.

O resultado é um bloco poderoso em discurso —
mas ainda fragmentado em seus interesses estratégicos.

O Brasil na corda bamba diplomática

O Brasil ocupa uma posição particularmente delicada dentro do BRICS.

Brasília busca protagonismo internacional e tenta se apresentar como voz relevante do chamado “Sul Global”.

Ao mesmo tempo, continua profundamente dependente:

  • do agronegócio exportador;
  • do mercado chinês;
  • do sistema financeiro internacional;
  • do dólar nas transações globais;
  • do fluxo de investimentos ocidentais.

Na prática, o país tenta manter uma “neutralidade ativa”:
aproxima-se do BRICS sem romper com o Ocidente.

Essa estratégia oferece vantagens diplomáticas —
mas também cria riscos.

Em um mundo cada vez mais polarizado, potências intermediárias tendem a sofrer pressão crescente para definir alinhamentos mais claros.

O desafio brasileiro será evitar tornar-se apenas um coadjuvante dentro de uma estrutura cada vez mais influenciada pela China.

O BRICS já mudou o jogo — mas ainda não controla o tabuleiro

Existe um erro comum em parte do debate internacional:
achar que o BRICS é irrelevante ou puramente simbólico.

Não é.

O bloco já alterou profundamente o cenário global ao:

  • acelerar a multipolaridade;
  • ampliar acordos fora do eixo dólar;
  • fortalecer redes comerciais paralelas;
  • desafiar instituições tradicionais;
  • aumentar a autonomia diplomática de países emergentes.

Mas também existe exagero na narrativa de que o grupo estaria prestes a substituir a hegemonia americana.

Ainda não está.

Porque construir uma ordem global exige algo muito mais difícil do que reunir países insatisfeitos.

Exige:

  • instituições duradouras;
  • confiança internacional;
  • integração estratégica;
  • previsibilidade;
  • capacidade de estabilização;
  • coerência política de longo prazo.

E esse talvez seja o principal dilema do BRICS em 2026:
o bloco já possui poder de veto,
mas ainda busca poder de construção.

O mundo entrou numa era de transição

O planeta parece atravessar uma crise clássica de hegemonia.

A ordem internacional criada após a Segunda Guerra Mundial mostra sinais claros de desgaste.

Ao mesmo tempo, a nova arquitetura global ainda não encontrou estabilidade suficiente para substituí-la.

Historicamente, períodos assim costumam gerar:

  • disputas econômicas mais agressivas;
  • guerras regionais;
  • fragmentação diplomática;
  • nacionalismos;
  • instabilidade financeira;
  • choques tecnológicos.

O BRICS talvez não seja ainda a nova ordem mundial.

Mas certamente já se tornou um dos principais sintomas de que a antiga ordem perdeu a capacidade de permanecer incontestável.


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Inês Theodoro

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