MP libera R$ 190 milhões para agricultura familiar: por que a verba é crucial e como deve ser fiscalizada

A Medida Provisória 1.325/2025, publicada recentemente e já em vigor, destina R$ 190 milhões para fortalecer a agricultura familiar no Brasil — um dos pilares da segurança alimentar nacional. O investimento, dividido entre ações de comercialização e formação de estoques públicos, pretende ampliar a presença dos pequenos produtores no mercado e garantir alimentos essenciais em períodos de instabilidade.

Apesar de já estar valendo, a MP ainda precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional para virar lei definitiva, o que abre espaço para debates, ajustes e, sobretudo, a necessidade de mecanismos sólidos de fiscalização.


Por que essa verba é tão importante

A agricultura familiar é responsável por grande parte dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro. Produz arroz, feijão, hortaliças, frutas e inúmeros produtos que abastecem mercados locais e redes de consumo direto. No entanto, esse segmento enfrenta desafios estruturais: dificuldade de acesso a crédito, falta de infraestrutura, baixa capacidade de estocagem e barreiras de comercialização.

A MP tenta atacar justamente dois desses pontos:

1. R$ 30 milhões para fortalecer comercialização e acesso a mercados

Essa parcela permite:

  • Apoio a feiras, cooperativas e redes de varejo locais;
  • Inserção dos agricultores familiares em compras institucionais (como escolas e hospitais);
  • Incentivo para comunidades tradicionais (quilombolas, indígenas, ribeirinhos) ampliarem sua renda via mercados estruturados.

2. R$ 160 milhões para abastecimento e formação de estoques públicos

Os estoques públicos servem como “pulmão” estratégico do país. Eles ajudam a:

  • Garantir alimentos em períodos de escassez;
  • Regular preços e evitar crises repentinas;
  • Comprar a produção de agricultores familiares, dando segurança de renda e reduzindo desperdício.

Em momentos de instabilidade climática ou econômica, esse mecanismo se torna vital.


Como a verba deve ser distribuída

A execução dos R$ 190 milhões ficará sob responsabilidade do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. Embora o detalhamento operacional ainda não tenha sido apresentado, a distribuição tende a seguir três frentes comuns em políticas semelhantes:

1. Programas específicos de apoio e comercialização

Devem ser abertas chamadas públicas para cooperativas, associações e grupos produtivos inscreverem projetos voltados à venda direta, logística, transporte, embalagens, feiras e acesso a novos mercados.

2. Compras institucionais para abastecimento

Parte dos recursos deve fomentar programas como:

  • Aquisição de alimentos para merenda escolar;
  • Estoques governamentais reguladores;
  • Compra direta para abastecer regiões vulneráveis.

3. Apoio a comunidades tradicionais

Projetos de povos indígenas, quilombolas e comunidades rurais tradicionais devem ter prioridade devido à sua importância sociocultural e alimentar.


Como essa verba deve ser fiscalizada

Para evitar desvio, uso inadequado e gargalos burocráticos (sempre um risco em medidas emergenciais), a MP exige uma fiscalização rigorosa. Eis os principais mecanismos necessários para garantir transparência e eficiência:

1. Relatórios públicos de execução

  • Atualizações mensais com valores liberados, destinos, beneficiários e regiões atendidas.
  • Portal único para consulta, permitindo que qualquer cidadão acompanhe o gasto.

2. Critérios claros de seleção

Apenas projetos que atendam a critérios objetivos — como DAP ativa, participação em cooperativas ou impacto social demonstrável — devem ser aprovados.

3. Auditoria independente

O Tribunal de Contas da União (TCU) e a Controladoria-Geral da União (CGU) podem:

  • Avaliar contratos;
  • Apontar falhas na execução;
  • Recomendar correções ou responsabilizações.

4. Controle social local

Sindicatos de trabalhadores rurais, cooperativas e conselhos de agricultores familiares devem integrar espaços de acompanhamento. Isso aproxima o controle da realidade de quem produz.

5. Métricas de impacto

É fundamental medir:

  • Aumento de renda dos agricultores;
  • Volume de alimentos comprados e estocados;
  • Regiões beneficiadas;
  • Eficiência na prevenção de crises alimentares.

Sem essas métricas, o risco de desperdício aumenta.


Conclusão

A MP 1.325/2025 tem potencial para ser uma das medidas mais relevantes do ano para a agricultura familiar — especialmente porque investe tanto na comercialização quanto na segurança alimentar do país.

Mas seu sucesso depende diretamente de transparência, critérios sólidos, fiscalização permanente e participação ativa da sociedade civil. Se bem executada, pode fortalecer cadeias produtivas, garantir abastecimento e dar estabilidade econômica para milhões de famílias rurais.

Se mal fiscalizada, porém, pode se tornar apenas mais uma verba dispersa sem impactos reais.

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  • Inês Theodoro

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