Trabalhar menos, produzir mais? A equação que desafia empresas e governos

Experiências internacionais indicam que redução de jornada só funciona quando produtividade cresce — e esse é o maior desafio brasileiro.


A possível votação no Congresso Nacional sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal reacendeu um debate que vai muito além de direitos trabalhistas. No centro da discussão está uma equação econômica delicada: é possível trabalhar menos horas sem reduzir produtividade, competitividade e empregos?

A questão divide especialistas, empresas e trabalhadores porque envolve fatores estruturais da economia — e não apenas legislação. Experiências internacionais recentes ajudam a iluminar o debate com dados concretos, mostrando que a resposta não é simples nem uniforme.


O que mostram os testes pelo mundo

Nos últimos anos, diversos países testaram modelos de jornada reduzida. Na Islândia, experiências conduzidas entre 2015 e 2019 diminuíram a carga semanal de 40 para cerca de 36 horas sem redução salarial. O resultado foi manutenção — e em alguns casos aumento — da produtividade, além de melhora consistente em indicadores de saúde e bem-estar dos trabalhadores.

No Reino Unido, um projeto piloto com 61 empresas que adotaram semana de quatro dias registrou aumento médio de receita e queda no absenteísmo. Mais de 90% das participantes optaram por manter o modelo após o teste.

No Japão, um experimento corporativo conduzido pela Microsoft apontou crescimento expressivo de produtividade, acompanhado de redução de custos operacionais. Funcionários passaram a priorizar tarefas essenciais e reduzir desperdícios de tempo.

Já a França apresenta o exemplo mais amplo: desde 2000, a jornada legal é de 35 horas semanais. A medida trouxe ganhos sociais relevantes, mas também exigiu ajustes regulatórios posteriores para acomodar setores econômicos com maior sensibilidade a custos.


O padrão comum entre os casos de sucesso

Apesar das diferenças culturais e econômicas, as experiências internacionais revelam um ponto em comum: a redução de jornada só se sustenta quando a produtividade por hora aumenta.

Nos países em que o modelo funcionou melhor, a mudança foi acompanhada por:

  • reorganização de processos internos
  • eliminação de tarefas improdutivas
  • uso intensivo de tecnologia
  • metas baseadas em resultado, não em tempo

Quando essas condições não existiam, empresas relataram aumento de custos e dificuldades operacionais, especialmente em setores que dependem de presença física contínua, como comércio, serviços presenciais e atendimento ao público.


O desafio específico do Brasil

O debate brasileiro ocorre em um cenário econômico particular. A produtividade média do trabalho no país cresce cerca de 0,5% ao ano, abaixo da média global aproximada de 1,5%. Esse indicador é decisivo porque, na prática, ele determina quanto valor econômico cada hora trabalhada gera.

Se a jornada diminui e a produtividade permanece igual, o custo por hora para empresas aumenta. Isso pode pressionar margens de lucro, reduzir contratações ou estimular substituição de mão de obra por automação.

Especialistas apontam que setores intensivos em conhecimento — tecnologia, finanças, marketing, consultoria — tendem a se adaptar melhor a jornadas menores. Já áreas operacionais e presenciais podem enfrentar maior dificuldade de ajuste.


Quem tem razão no debate

A polarização entre defensores e críticos da redução da jornada esconde um fato importante: ambos os lados apresentam argumentos válidos.

Apoiadores estão corretos ao afirmar que jornadas menores podem elevar qualidade de vida, engajamento e foco — fatores que influenciam desempenho. Críticos também têm fundamento ao alertar que mudanças sem ganhos de eficiência podem gerar impactos econômicos negativos.

Na prática, experiências internacionais mostram que a medida não é fracasso nem solução automática. Trata-se de uma política estrutural que exige planejamento, transição gradual e adaptação contínua.


O que está realmente em jogo

Mais do que a quantidade de horas trabalhadas, o debate gira em torno da qualidade do tempo produtivo. Economias que conseguiram reduzir jornada sem prejuízo foram justamente aquelas que investiram em tecnologia, qualificação profissional e modernização de processos.

Isso indica que a discussão não deveria se limitar à carga horária, mas incluir políticas de produtividade, inovação e competitividade empresarial.


A equação que definirá o futuro

Os dados disponíveis sugerem um consenso técnico: reduzir a jornada é possível, mas não isoladamente. O sucesso depende de um conjunto de fatores econômicos que vão além da legislação.

Sem aumento de eficiência, a mudança pode pressionar empresas. Com ganhos de produtividade, pode gerar benefícios sociais e econômicos simultaneamente.

Em última análise, o debate não é sobre trabalhar menos — e sim sobre produzir melhor.

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  • Inês Theodoro

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