Poços artesianos: água pública na teoria, inacessível na prática

Desde 1988, com a Constituição Federal, a água subterrânea passou a ser considerada bem público.
Em teoria, isso significa que nenhum cidadão é “dono” da água que está no subsolo do seu terreno — ela pertence ao Estado.

E é justamente aí que o problema começa.

Se a água é pública, o governo poderia simplesmente monitorar seu uso para fins ambientais.
Mas o que acontece na prática é bem diferente:

➡ Para perfurar um poço, o cidadão precisa pedir autorização ao governo.
➡ Essa autorização exige uma cadeia de etapas complexas e caras.

Hoje, para perfurar um poço legalmente, o cidadão precisa:

  1. Contratar um geólogo ou empresa especializada
  2. Fazer estudo técnico de viabilidade e laudo geológico
  3. Enviar projeto para o órgão ambiental do estado (Ex.: ANA, IGAM, DAEE etc.)
  4. Pagar taxas de outorga (a permissão para captar água pública)
  5. Instalar um hidrômetro para medir tudo que é bombeado
  6. Enviar relatórios periódicos de uso ao governo

Um morador rural ou pequeno comerciante pode gastar facilmente:

💸 R$ 8.000 a R$ 30.000 só para conseguir autorização
💸 R$ 25.000 a R$ 80.000 para perfurar um poço de verdade

Ou seja: a água é pública, mas o acesso a ela é elitizado.

A água é do povo.
Mas o povo não pode usá-la sem pedir permissão — e pagar por isso.


O paradoxo constitucional

Se o recurso é público, não faz sentido que seja mais difícil alguém acessar um poço do que acessar empréstimo bancário.

O discurso oficial é de proteção ambiental.
Mas o efeito real é outro:

Concentra o acesso à água nas mãos de quem pode pagar: grandes empresas, indústrias e agronegócio.

Para eles, a autorização sai.
Para uma família comum, o processo vira um labirinto.


O mecanismo de dependência

Quando o governo exige:

  • estudos técnicos caros,
  • outorga,
  • instalação de hidrômetro,
  • relatórios de consumo…

ele transforma o cidadão em dependente do sistema de fornecimento de água.

E isso fortalece o ciclo:

Quem controla o poçoControla a água
Quem controla a águaControla a população
Quem controla a populaçãoControla o poder

E o que está por trás disso?

Porque, se o poço dá independência, a conta de água dá dependência.

E dependência é receita garantida.

Água subterrânea é “bem público”, mas…
➡ só pode ser usada se o governo autorizar
➡ e só se você puder pagar o processo

Em outras palavras:

Não é proibição. É controle.
A água é do povo, mas o lucro é de alguns..

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  • Inês Theodoro

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