Empresas exploram aquíferos profundos com autorização legal, mas dados técnicos e pouca transparência dificultam o controle social sobre quanto está sendo retirado
Enquanto rios e represas dominam o debate ambiental, um mercado silencioso cresce longe da vista pública: a exploração comercial de água subterrânea. Empresas perfuram poços profundos para captar água de aquíferos naturais e revendê-la engarrafada ou distribuída em larga escala. A atividade é legal quando possui outorga, mas especialistas alertam que a população raramente tem acesso claro aos volumes retirados.
No Brasil, registros de autorização e uso são mantidos pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, enquanto dados técnicos de poços e aquíferos são reunidos pelo Serviço Geológico do Brasil. Apesar de públicos, esses sistemas exigem conhecimento técnico para interpretação, o que limita o acompanhamento pela sociedade.
Pesquisadores explicam que aquíferos funcionam como reservas naturais de longo prazo. Diferentemente de rios, sua reposição pode levar décadas ou até séculos. Quando a retirada supera a recarga natural, ocorre rebaixamento do lençol freático, afetando nascentes, poços domésticos e a disponibilidade hídrica regional.
Outro desafio está na estrutura de gestão: parte das autorizações é federal e parte estadual, criando lacunas de fiscalização e inconsistências de dados. Esse cenário favorece o crescimento de um setor economicamente promissor, mas pouco debatido fora de círculos técnicos.
Especialistas defendem três medidas urgentes para equilibrar exploração e preservação: divulgação acessível dos volumes extraídos, monitoramento contínuo aberto ao público e participação comunitária nas decisões de outorga. Sem esses mecanismos, alertam, o país pode descobrir tarde demais que reservas estratégicas foram exploradas além do limite seguro.
Água invisível, risco real
O problema não é explorar água subterrânea. O problema é fazê-lo sem transparência compreensível para quem vive sobre ela.
Quando um recurso essencial se torna mercadoria de alto valor, a lógica econômica pressiona por mais captação. Se não houver vigilância pública e fiscalização constante, a extração cumulativa pode comprometer reservas inteiras sem sinais visíveis imediatos.
Água subterrânea é como uma poupança ambiental: retirar pequenas quantias pode ser sustentável; retirar rápido demais leva ao colapso. A diferença é que, no caso dos aquíferos, o prejuízo só aparece quando a reserva já está comprometida.
O Brasil ainda tem tempo de evitar esse cenário. Mas isso exige transformar dados técnicos em informação acessível, fortalecer a fiscalização e tratar a água subterrânea como patrimônio coletivo — não apenas como insumo econômico.
Porque a água que não vemos também pode acabar.







