O Brasil dos “invisíveis digitais”

Milhões de brasileiros estão sendo excluídos de serviços públicos por não conseguirem acessar ou compreender sistemas digitais obrigatórios

O Brasil nunca esteve tão conectado — e, paradoxalmente, nunca excluiu tanta gente do acesso aos próprios direitos.

Nos últimos anos, o Estado brasileiro acelerou a digitalização de serviços essenciais como saúde, previdência, assistência social, Justiça e educação. Aplicativos, portais e autenticações digitais passaram a ser a porta de entrada quase exclusiva para benefícios, atendimentos e garantias constitucionais.

O problema é que milhões de brasileiros não conseguiram atravessar essa porta.

Eles não aparecem nas estatísticas oficiais.
Não fazem protestos.
Não geram manchetes.

São os invisíveis digitais.


Quando o direito exige login e senha

Hoje, para acessar serviços básicos, o cidadão precisa:

  • Smartphone compatível
  • Internet estável
  • E-mail ativo
  • Senhas fortes
  • Biometria facial funcionando
  • Capacidade mínima de navegação digital

Na prática, isso exclui:

  • Idosos
  • Pessoas de baixa renda
  • Moradores de áreas rurais
  • Pessoas com deficiência
  • Brasileiros com baixa escolaridade
  • Trabalhadores informais

O direito deixou de ser um balcão.
Virou um aplicativo.

E quem não consegue usar, simplesmente fica para trás.


O Estado que não atende mais pessoas — atende sistemas

Filas físicas foram encerradas em nome da eficiência.
Atendentes humanos foram substituídos por robôs de resposta.
Reclamações viraram protocolos que nunca retornam.

Hoje, milhares de brasileiros:

  • Perderam benefícios do INSS por não conseguirem usar aplicativos
  • Tiveram cadastros cancelados por “inconsistência de dados” sem explicação
  • Não conseguem agendar perícias ou atendimentos médicos
  • Ficam presos em loops digitais sem acesso a um ser humano

A exclusão não é explícita.
Ela acontece por erro de sistema, prazo perdido, falha de autenticação.

A máquina decide.
E não explica.


A modernização que não considera a realidade

O discurso oficial fala em inovação, economia e agilidade.
Mas ignora uma pergunta básica:

Para quem esse sistema foi desenhado?

Segundo dados de institutos de pesquisa e do próprio IBGE, milhões de brasileiros:

  • Usam celulares antigos
  • Dependem de internet pré-paga
  • Não possuem letramento digital
  • Compartilham aparelhos com a família

Digitalizar serviços sem políticas de inclusão é como construir prédios públicos sem rampas:
tecnicamente modernos, socialmente excludentes.


A nova desigualdade brasileira

Antes, a exclusão vinha da falta de documentos.
Hoje, vem da falta de conexão.

Antes, o problema era não chegar ao órgão público.
Agora, é não conseguir passar da tela inicial.

A desigualdade digital não é só tecnológica.
É institucional.

Ela redefine quem existe para o Estado — e quem desaparece nos sistemas.


Invisíveis porque não conseguem reclamar

O mais grave é que os excluídos digitais raramente conseguem denunciar a exclusão.

Quem não acessa:

  • Não abre chamado
  • Não registra reclamação
  • Não entra nas estatísticas
  • Não aparece nos relatórios

A exclusão vira silêncio.
E o silêncio vira normalidade.


O Brasil precisa escolher

Digitalizar serviços é necessário.
Abandonar pessoas, não.

Sem atendimento humano, canais alternativos e políticas reais de inclusão digital, o país corre o risco de institucionalizar uma nova forma de desigualdade — mais silenciosa, mais fria e mais difícil de combater.

O Brasil não pode aceitar que o acesso a direitos dependa da capacidade de navegar em aplicativos.

Direitos não deveriam expirar por falta de login.
Cidadãos não deveriam desaparecer por erro de sistema.

.http://jornalfactual.com.br

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  • Inês Theodoro

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