Projeto endurece regras contra facções e milícias, reacende debate sobre direitos fundamentais e reposiciona o país no combate ao crime organizado
Um marco que divide águas na política criminal brasileira
A aprovação do chamado PL Antifacção pelo Senado marca um dos movimentos legislativos mais agressivos das últimas décadas no combate ao crime organizado. O projeto, avaliado e votado em tempo recorde pelos senadores, cria um novo arcabouço jurídico pensado especificamente para enfrentar facções, milícias e redes criminosas complexas, ampliando penas, restringindo benefícios e determinando regras duríssimas de execução penal.
O país, historicamente marcado pela expansão territorial e econômica de grupos criminosos, chega a um ponto de inflexão: punir mais, punir melhor ou punir além do necessário?
Essa é a pergunta que atravessa o debate público desde que o texto avançou no Congresso.
Penas que podem ultrapassar 100 anos: um símbolo da nova política criminal
O ponto que mais chama a atenção é a possibilidade de penas que, somadas, chegam a 120 anos de prisão. O número, mais simbólico do que prático, representa o desejo do legislativo de enviar uma mensagem de força e intolerância diante do crescimento das organizações criminosas.
As alterações mais relevantes incluem:
- Pena-base de 15 a 30 anos para participação ou financiamento de organização criminosa.
- Líderes e chefes podem ter penas que chegam a 60 anos, ampliadas por agravantes.
- Crimes como homicídio praticado em contexto de facção podem elevar a soma para 80, 100 ou até 120 anos.
- Progressão de regime mais rígida, podendo exigir o cumprimento de até 85% da pena.
- Transferência obrigatória de líderes para presídios federais de segurança máxima.
O Brasil, que tradicionalmente limita o tempo máximo de cumprimento a 40 anos, agora cria uma narrativa jurídica em que a soma das penas tem peso político e social, mesmo que não seja cumprida integralmente.
Entre segurança e democracia: uma fronteira que se estreita
A discussão no Senado expôs uma tensão permanente na política brasileira: como combater grupos altamente organizados sem atravessar limites constitucionais?
A ampliação de penas e a restrição de benefícios animaram setores que cobram respostas imediatas à violência. Mas também acenderam alertas em defensores de direitos humanos, juristas e entidades civis.
As críticas se concentram em três pontos:
- Penas extremas podem ser ineficazes ou apenas simbólicas, sem atacar as raízes do problema — como finanças ilícitas, corrupção estatal e lavagem de dinheiro.
- A progressão de regime quase inviável pode fortalecer o sistema prisional como espaço de radicalização e fortalecimento das próprias facções.
- O isolamento extremo em presídios federais já é alvo de questionamentos por supostas violações de direitos básicos.
O risco, segundo especialistas, é repetir a história: leis mais duras que rendem manchetes, mas não solucionam a estrutura que alimenta o crime organizado.
Por que o projeto avança agora? A resposta está fora das prisões
A aprovação unânime do Senado não brotou do nada. Ela reflete:
- pressão da opinião pública, que demanda respostas rápidas ao aumento da violência;
- gestos políticos em um ano de tensão institucional, em que segurança pública virou carta central;
- e a força do lobby de estados e municípios, que veem as facções controlando territórios, cobrando taxas, explorando apostas, dominando presídios e ampliando redes digitais.
Há também um componente econômico: o PL inclui mecanismos para taxar plataformas de apostas online, criando a “Cide das bets”, vista como fonte de financiamento para políticas de segurança.
Terrorismo: o ponto que o Senado decidiu evitar
Parte dos parlamentares queria equiparar ações de facções ao crime de terrorismo. Mas o texto final rejeitou essa equiparação — e foi uma decisão institucionalmente significativa.
O terrorismo, pela definição jurídica brasileira, exige motivação política, ideológica ou religiosa.
Facções, por sua vez, têm motivações econômicas e territoriais.
A tentativa de juntar conceitos distintos poderia abrir precedentes perigosos, ampliando o uso do rótulo “terrorismo” para fins além do combate ao crime organizado.
Ao recuar, o Senado preservou um dos marcos legais mais sensíveis do país: a separação entre crime organizado e terrorismo.
O que esperar agora?
O PL ainda precisa voltar à Câmara dos Deputados, mas a tendência é que o texto avance sem grandes resistências — o tema rende popularidade e se alinha ao discurso de força que domina o debate político atual.
Se aprovado sem modificações, o Brasil terá:
- um dos modelos penais mais duros do Ocidente para o combate ao crime organizado;
- um sistema de execução penal mais rígido e caro;
- e uma legislação que, ao mesmo tempo que promete mais segurança, também desafia fundamentos constitucionais.
O impacto real — nas ruas, nos presídios e no sistema judiciário — só aparecerá nos próximos anos.
Conclusão: uma lei que revela a alma do país
A aprovação do PL Antifacção não é apenas um endurecimento penal.
É um espelho do Brasil contemporâneo: um país cansado da violência, pressionado por estruturas criminosas poderosas, mas também dividido entre soluções fáceis e problemas complexos.
Se será a legislação que transformará a segurança pública ou apenas mais um capítulo da política de encarceramento em massa — isso ainda está em aberto.
Mas uma coisa é certa:
o Brasil acaba de entrar em uma nova era no combate às organizações criminosas — e terá de lidar com todas as consequências dessa escolha.







