Domingo, 21 de dezembro de 2025
Antes mesmo que a poeira dos bombardeios assente completamente, planos bilionários já desenham o futuro da Faixa de Gaza como uma metrópole de alta tecnologia, turismo de luxo e retorno financeiro. A proposta, atribuída a círculos do governo dos Estados Unidos e revelada pelo Wall Street Journal, levanta uma pergunta central e incômoda: reconstrução para quem — e à custa de quem?
Enquanto hospitais operam em condições precárias, bairros inteiros seguem reduzidos a escombros e mais de dois milhões de pessoas vivem deslocadas ou em situação de emergência, documentos e relatos recentes indicam que Washington discute um plano de longo prazo para transformar Gaza em um polo tecnológico costeiro, com investimentos estimados em US$ 112 bilhões nos primeiros dez anos.
Batizado informalmente de Project Sunrise, o plano propõe uma reconstrução em múltiplas fases, incluindo infraestrutura moderna, cidades inteligentes, zonas comerciais e uma extensa reconfiguração do litoral para turismo e empreendimentos de alto padrão. No papel, trata-se de um projeto futurista. Na prática, ele expõe profundas lacunas humanitárias, políticas e éticas.
Um futuro desenhado antes do fim da guerra
A velocidade com que esses projetos emergiram chama atenção. Mesmo sem cessar-fogo definitivo, sem acordo político estável e sem definição clara de governança para Gaza, o futuro do território já aparece esquematizado em apresentações técnicas, projeções financeiras e visões urbanísticas de longo prazo.
Para especialistas em conflitos e direito internacional, esse fenômeno não é neutro. “Quando planos de reconstrução surgem antes da resolução do conflito, eles raramente são apenas humanitários. Geralmente carregam interesses estratégicos, econômicos e políticos”, avaliam analistas ouvidos por veículos internacionais.
O grande silêncio: o destino da população local
O ponto mais sensível do plano não está no orçamento nem na tecnologia proposta, mas no que não está claramente explicado:
onde e como viverão os atuais moradores de Gaza durante e após essa transformação.
Os documentos mencionam reconstrução urbana, mas não detalham:
- garantias de retorno aos bairros originais,
- proteção da propriedade de famílias deslocadas,
- políticas de acesso à moradia em uma futura cidade valorizada,
- nem mecanismos de participação direta dos palestinos nas decisões.
Em outras palavras, a população aparece como variável logística — não como protagonista.
Reconstrução condicionada e controle político
Outro eixo central do plano é a exigência de desmilitarização total do Hamas como pré-condição para o início da reconstrução em larga escala. Trata-se de uma condição rejeitada pelo grupo e considerada, por diplomatas, de difícil implementação no curto e médio prazo.
Na prática, essa exigência cria um impasse:
a reconstrução torna-se uma promessa condicionada a um cenário político improvável, enquanto o território permanece em estado de exceção permanente.
Críticos afirmam que isso transforma a reconstrução em instrumento de pressão geopolítica, e não em resposta humanitária imediata.
Tecnologia, turismo e a lógica do mercado
O contraste entre as necessidades urgentes de Gaza e a visão apresentada no plano é evidente. Enquanto organismos internacionais estimam que US$ 53 bilhões seriam suficientes para uma reconstrução funcional focada em habitação, saneamento, saúde e educação, o projeto norte-americano praticamente dobra esse valor ao incluir ambições de alto padrão, retorno financeiro e monetização do litoral.
Economistas alertam que, mesmo se implementado, um modelo baseado em turismo e tecnologia pode elevar o custo de vida e excluir justamente aqueles que sobreviveram à guerra.
“O risco é reconstruir Gaza como vitrine, não como lar”, resume um pesquisador do Oriente Médio.
Uma reconstrução sem soberania
Há ainda um problema estrutural: Gaza não controla plenamente seu espaço aéreo, marítimo nem suas fronteiras. Sem soberania mínima e estabilidade política, projetos de investimento privado em larga escala enfrentam riscos severos.
Nesse contexto, falar em hubs tecnológicos e cidades inteligentes pode soar mais como exercício de imaginação estratégica do que como plano viável no terreno.
Mais do que urbanismo, uma disputa de narrativa
O plano para Gaza revela algo maior do que um projeto urbano. Ele expõe uma disputa sobre quem define o futuro do território.
De um lado, uma visão externa, tecnocrática e orientada pelo mercado.
Do outro, uma população que luta, há décadas, pelo direito básico de existir com dignidade em sua própria terra.
Sem participação efetiva dos palestinos, sem garantias de direitos e sem justiça reparatória, qualquer reconstrução corre o risco de repetir um padrão histórico conhecido: o de territórios redesenhados sem o consentimento de quem os habita.
Conclusão
Transformar Gaza em uma “cidade do futuro” enquanto seus moradores ainda enterram seus mortos não é apenas um problema de timing. É uma questão moral e política.
Reconstrução verdadeira não começa com resorts, slides ou projeções financeiras. Começa com direito ao retorno, segurança, autodeterminação e voz ativa da população local.
Sem isso, o risco é que o futuro de Gaza seja decidido não por quem vive ali, mas por quem enxerga o território como ativo estratégico. E isso, independentemente do brilho tecnológico prometido, dificilmente pode ser chamado de progresso.







