Enquanto o noticiário diário se perde em disputas pontuais e declarações de ocasião, algo muito mais profundo está em curso nos bastidores da geopolítica global. Não se trata de um conflito isolado, nem de uma crise passageira. O que está emergindo é uma reorganização silenciosa do poder mundial — e o Brasil, queira ou não, já foi puxado para o centro desse jogo.
A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela funcionou como um divisor de águas. Não apenas pelo impacto regional imediato, mas pelo precedente que estabelece: grandes potências voltam a agir de forma direta, com menor preocupação em disfarçar seus interesses estratégicos sob discursos tradicionais de “democracia” ou “estabilidade”.
Esse movimento não ocorre no vácuo. Ele se soma à rivalidade crescente entre Estados Unidos e China, à guerra prolongada no Leste Europeu, às tensões energéticas e à transformação das commodities em instrumentos explícitos de poder. O mundo caminha, com velocidade crescente, para uma lógica multipolar, instável e pragmática.
Nesse cenário, o Brasil deixou de ser apenas observador.
Um país médio em um mundo fragmentado
O Brasil ocupa hoje uma posição singular:
não é uma superpotência militar, mas também não é irrelevante. É exatamente esse tipo de país que passa a ter valor estratégico elevado em um mundo fragmentado.
Com capacidade de produção de alimentos, energia, água, minerais e influência diplomática, o Brasil se tornou um ativo disputado — não por invasões militares, mas por pressão política, econômica e narrativa.
A reação brasileira à crise venezuelana seguiu um roteiro conhecido da diplomacia nacional: defesa da soberania, crítica a intervenções unilaterais e aposta no multilateralismo. Mas, desta vez, o contexto é outro. Essa postura já não é neutra. Ela posiciona o Brasil.
BRICS: de fórum econômico a instrumento de poder
Durante anos, o BRICS foi tratado como um clube simbólico. Em 2026, isso já não corresponde à realidade.
O bloco:
- ampliou sua composição,
- fortaleceu seu banco de desenvolvimento,
- passou a discutir mecanismos financeiros fora da órbita do dólar,
- e, sobretudo, ganhou densidade política.
Para o Brasil, o BRICS não é um projeto ideológico, mas uma ferramenta de barganha. Ele oferece margem de manobra em um mundo onde alinhamentos automáticos cobram preço alto.
Ao mesmo tempo, essa posição exige equilíbrio. O Brasil não demonstra interesse em romper com os Estados Unidos ou a Europa, mas tampouco aceita ser empurrado para a condição de coadjuvante. O movimento é claro: autonomia estratégica.
Eleições de 2026: o mundo entra na campanha
É impossível dissociar esse cenário internacional do ambiente político interno. As eleições presidenciais de 2026 não serão apenas um embate ideológico doméstico. Elas ocorrerão sob a sombra de um mundo mais duro, mais instável e menos previsível.
Temas como soberania, alinhamento internacional, dólar, inflação importada, energia e segurança alimentar entrarão no debate — ainda que travestidos de preocupações cotidianas.
O eleitor talvez não discuta “multipolaridade”, mas sentirá seus efeitos no bolso, no emprego e na sensação de futuro. E os candidatos, inevitavelmente, serão pressionados a responder a uma pergunta central:
qual é o lugar do Brasil nesse novo mundo?
Um ponto que poucos dizem em voz alta
A maior mudança não está nas manchetes, mas na lógica do sistema internacional: as regras ficaram mais flexíveis para os fortes — e mais perigosas para os distraídos.
Nesse contexto, países como o Brasil precisam escolher entre ingenuidade e estratégia. Até agora, a opção tem sido clara: manter pontes abertas, evitar alinhamentos automáticos e preservar capacidade de decisão.
Isso não garante imunidade a choques externos, mas aumenta as chances de atravessá-los com menos danos.
Conclusão
O que está fermentando nos bastidores globais não é um evento isolado, mas uma transição de era. O mundo de 2026 já não opera sob as mesmas premissas do pós-Guerra Fria. O poder voltou a ser exercido de forma mais direta, menos disfarçada e mais pragmática.
O Brasil, goste ou não, está no radar.
E, desta vez, ficar neutro não significa ficar fora do jogo.








