Enquanto o foco público recai sobre o STF e a Polícia Federal, o Tribunal de Contas da União emerge como peça-chave de uma engrenagem institucional onde decisões técnicas, pressões políticas e interesses bilionários se cruzam longe dos holofotes.
O chamado caso Master deixou de ser apenas um episódio policial ou um debate técnico-financeiro. Ele se consolidou como um tabuleiro institucional de alta complexidade, onde Banco Central, Tribunal de Contas da União (TCU), Supremo Tribunal Federal (STF) e forças políticas de peso passaram a se mover simultaneamente — nem sempre à vista do público.
Enquanto a atenção da opinião pública se concentra no STF e nas investigações da Polícia Federal, o verdadeiro ponto de inflexão da trama pode estar no TCU, órgão que, discretamente, passou a ocupar o centro da engrenagem.
O foco que mudou de lugar
O processo em curso no Tribunal de Contas da União investiga eventuais falhas, omissões e irregularidades na condução da liquidação do Banco Master pelo Banco Central. Embora o TCU não tenha competência para substituir decisões técnicas da autoridade monetária, sua atribuição é clara: verificar se essas decisões respeitaram os limites da legalidade, da motivação administrativa e dos ritos formais exigidos.
É justamente nesse ponto que o caso ganha densidade política.
Segundo informações publicadas pela Folha de S. Paulo, o relator do processo, ministro Jhonatan de Jesus, estaria sendo alvo de pressões de políticos influentes do Centrão. O dado, por si só, indica que a discussão ultrapassou o campo técnico e passou a atingir interesses sensíveis de alto nível.
Quando o Centrão se mobiliza, dificilmente o assunto é periférico.
A estratégia pouco explorada
Nos bastidores, a defesa de Daniel Vorcaro não trabalha com a reversão da liquidação do banco — cenário considerado improvável. A aposta é mais sutil e potencialmente mais eficaz: questionar o caminho institucional que levou à liquidação.
Se o TCU identificar vícios no processo conduzido pelo Banco Central — seja por falhas procedimentais, decisões mal fundamentadas, omissões relevantes ou conflitos institucionais — o impacto pode ser profundo:
- enfraquecimento da sustentação criminal do caso;
- redução do risco de condenação;
- questionamento do elemento de dolo;
- e, sobretudo, o afastamento da hipótese de uma futura delação premiada.
Este último ponto, embora pouco debatido publicamente, é considerado crítico nos bastidores. Uma delação de Vorcaro é temida por setores políticos e financeiros, o que ajuda a explicar a intensa movimentação em torno do processo no TCU.
Os bilhões fora do radar
O que permanece sob o véu é a real dimensão financeira do caso. A liquidação de uma instituição desse porte não atinge apenas acionistas diretos. Ela reverbera em cadeias de crédito, fundos de investimento, contratos públicos e privados, garantias cruzadas e relações com bancos estatais.
Quando Banco Central, TCU e STF passam a atuar simultaneamente sobre o mesmo caso, é improvável que os valores envolvidos sejam marginais. O silêncio estratégico, nesse contexto, pode ser tão relevante quanto qualquer decisão judicial.
Enquanto isso, no STF
Na noite de segunda-feira, 30 de dezembro de 2025, Daniel Vorcaro prestou quase três horas de depoimento à Polícia Federal. Também foram ouvidos o ex-presidente do BRB e Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central — personagem central da investigação.
Ailton teria participado de uma videoconferência com Vorcaro poucas horas antes da prisão, um detalhe que adiciona tensão institucional ao caso.
Durante a oitiva, Vorcaro respondeu inclusive a questionamentos encaminhados pelo ministro Dias Toffoli, entre eles um pedido de avaliação da atuação do Banco Central na condução do processo.
Ao final da noite, a Polícia Federal dispensou Ailton e determinou a acareação entre Vorcaro e o ex-presidente do BRB, após considerar contraditórios os depoimentos prestados — um movimento que indica fissuras relevantes na narrativa apresentada até aqui.
O que está em jogo
O cenário que se desenha é claro:
- o TCU pode redefinir o eixo do caso, sem interferir diretamente no mérito penal;
- o Banco Central deixa de ser apenas órgão técnico e passa a ocupar o centro da controvérsia;
- o STF se vê cercado por conexões institucionais sensíveis;
- e interesses bilionários operam para que determinadas informações não venham à tona.
Quando tantos poderes se movimentam ao mesmo tempo, a pergunta não é se algo relevante será revelado — mas quem perderá o controle da narrativa quando isso acontecer.
O caso Master já não é apenas um processo.
É um teste de estresse das instituições brasileiras.
E, historicamente, esses testes nunca envolvem valores pequenos.








