QUEM FISCALIZA O PODER INVISÍVEL?

TCUs, corregedorias, conselhos e auditorias fiscalizam contratos, papéis e pessoas.
Mas falham onde o poder realmente opera hoje: no código, nos dados e nos acessos.

A pergunta é simples. E justamente por isso, devastadora:
quem fiscaliza o código, os acessos e a governança dos dados do Estado?

Não é uma provocação técnica.
É uma cobrança política.

E o silêncio que ela provoca diz mais do que qualquer relatório oficial.


A omissão que não é crime — mas é escândalo

Não existe, hoje, ilegalidade explícita em não auditar profundamente sistemas digitais, algoritmos decisórios ou estruturas de dados sensíveis.
Mas não confunda legalidade com legitimidade.

Quando órgãos de controle admitem — mesmo que indiretamente — que não fiscalizam o funcionamento interno dos sistemas que influenciam políticas públicas, benefícios, punições e decisões administrativas, o que se revela não é um detalhe técnico.
É uma falha estrutural do Estado moderno.

O poder migrou.
O controle ficou para trás.


O beco sem saída dos fiscalizadores

Diante da pergunta, os órgãos de controle costumam reagir com duas respostas-padrão. Ambas soam como fuga.

“Isso não é nossa atribuição.”
Se não é atribuição de quem fiscaliza, então de quem é?
Aceitar essa resposta significa admitir que existe uma esfera decisória inteira do Estado sem qualquer vigilância institucional.

“Isso é técnico demais.”
Se é técnico demais para quem controla o poder público, então o poder deixou de ser democrático.
Passou a operar em uma zona reservada a especialistas, fornecedores e empresas terceirizadas.

Em ambos os casos, o resultado é o mesmo:
ou omissão, ou irrelevância.


O Estado que fiscaliza papéis, mas não sistemas

Os tribunais analisam notas fiscais.
As corregedorias apuram condutas individuais.
As auditorias verificam contratos.

Mas quem analisa:

  • os critérios embutidos em algoritmos?
  • os logs de acesso a dados sensíveis?
  • as permissões administrativas de sistemas críticos?
  • as decisões automatizadas que afetam milhões?

A resposta honesta é desconfortável: ninguém de forma sistemática, independente e contínua.


O novo centro do poder não passa por carimbo

Hoje, decisões públicas passam por:

  • bancos de dados
  • softwares proprietários
  • integrações invisíveis
  • regras que não aparecem em decretos nem portarias

Quem controla o código controla o resultado.
Quem controla os dados controla o comportamento.
E quem controla os acessos controla o poder.

Mas esse poder não aparece nos organogramas oficiais.


A pergunta que desmonta a narrativa institucional

A crueldade da pergunta não está no ataque, mas na exposição.

Ela não acusa.
Ela obriga a responder.

E quando não há resposta clara, o que surge é a constatação de que o modelo clássico de controle estatal não acompanha mais a forma real do poder.

Não por má-fé necessariamente.
Mas por atraso, acomodação e medo de admitir a própria obsolescência.


Controle sem código é encenação

Falar em fiscalização no século XXI sem falar em:

  • governança de dados
  • auditoria de sistemas
  • transparência algorítmica
  • rastreabilidade de acessos

é manter uma encenação institucional.

O Estado continua fingindo que controla, enquanto o poder real opera em camadas que ninguém audita.


A verdade incômoda

Não fiscalizar profundamente não é crime.
Mas admitir que não se fiscaliza é politicamente indefensável.

Por isso a pergunta incomoda.
Por isso gera reação.
Por isso ninguém gosta de respondê-la em público.

Porque ela revela algo que muitos preferem manter invisível:
o poder evoluiu — e o controle ficou para trás.

E enquanto ninguém tiver coragem de dizer quem fiscaliza o código,
a resposta continuará sendo a mais perigosa de todas:

ninguém.

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  • Inês Theodoro

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