Três anos se passaram. Três anos são tempo suficiente para investigação, responsabilização, correção institucional e amadurecimento democrático. Ainda assim, o Brasil volta a ser convocado a lembrar — com solenidade, discursos e enquadramento único — os chamados “atos golpistas”.
A pergunta que se impõe não é emocional, é política:
por que agora?
E, principalmente, por que da mesma forma?
Em democracias maduras, a memória serve para esclarecer. Quando ela passa a ser reiterada de modo seletivo e estratégico, passa a cumprir outra função: organizar o presente por meio do medo do passado.
O calendário não é inocente
Não há ingenuidade no tempo político. A retomada insistente dessa narrativa ocorre em um contexto claro:
- aproximação de um novo ciclo eleitoral
- queda de confiança institucional registrada em pesquisas
- crescimento do questionamento público sobre decisões judiciais
- e um eleitorado menos disposto a aceitar versões únicas
Relembrar fatos não é o problema.
O problema é impedir que eles sejam revisitados sob novos ângulos.
O rótulo que encerra o debate
Com o tempo, a palavra “golpista” deixou de ser uma classificação jurídica para se tornar um instrumento discursivo. Ela encerra discussões antes que comecem. Questionar o enquadramento vira sinônimo de cumplicidade. Pedir nuances vira suspeita.
Três anos depois, ainda são temas pouco explorados:
- falhas evidentes de segurança do Estado
- responsabilidades administrativas
- omissões institucionais
- contradições processuais
- e a diferença entre vandalismo, protesto e insurreição
Quando o rótulo substitui a análise, não há aprendizado — apenas repetição.
O STF e o peso do protagonismo permanente
O Supremo Tribunal Federal ocupa hoje um espaço central que ultrapassa o jurídico. Tornou-se um ator político incontornável, com influência direta sobre:
- o debate público
- a imprensa
- as plataformas digitais
- e os limites do discurso aceitável
Não se trata de negar sua função constitucional. Trata-se de reconhecer um risco: quando o mesmo poder que julga também define a narrativa dominante, a crítica passa a ser vista como ameaça.
E democracia não se fortalece quando o questionamento é tratado como perigo.
Força institucional ou receio do debate?
Há uma leitura que cresce fora dos discursos oficiais: a de que a insistência nesse tema não demonstra segurança, mas insegurança.
Insegurança diante de:
- cidadãos mais informados
- fontes alternativas de informação
- jornalismo independente
- e um público que compara versões em vez de aceitá-las
O chamado “despertar” não é extremismo. É ceticismo.
E o ceticismo é saudável — especialmente em regimes que se dizem democráticos.
O que está realmente em disputa
No fundo, não se debate apenas o passado. Debate-se quem controla a narrativa do presente.
Quem define o que é ameaça?
Quem decide o que pode ou não ser questionado?
Quem fiscaliza aqueles que dizem proteger a democracia?
Quando essas perguntas incomodam mais do que respostas prontas, talvez o problema não esteja na sociedade, mas na relação entre poder e transparência.
Conclusão
Lembrar a história é necessário.
Transformá-la em dogma permanente, não.
Democracia não se sustenta no silêncio, mas na fricção.
Não no medo, mas na confiança de que ideias podem ser confrontadas.
O verdadeiro teste democrático não é punir quem grita.
É saber conviver com quem pergunta.






