Há momentos em que o poder público deixa de errar por ingenuidade e passa a errar por escolha. O que ocorreu na Câmara Municipal de Curitiba não é apenas polêmico, nem “controverso”. É simbólico de uma inversão moral perigosa: o Estado, que deveria proteger, passa a ensinar como se autodestruir.
Sob o rótulo elegante da “redução de danos”, foi promovido um ato em defesa da legalização das drogas, acompanhado da distribuição de cartilhas que explicam como usar entorpecentes — incluindo orientações sobre o consumo de cocaína. Não se trata de combater o tráfico, nem de salvar vidas em situação extrema. Trata-se de normalizar o vício dentro da sede do Poder Legislativo.
Enquanto isso, o Brasil real — aquele fora das bolhas acadêmicas e ideológicas — enterra filhos, vê famílias se despedaçarem e profissionais de saúde travarem batalhas diárias contra overdoses, paradas cardíacas e danos irreversíveis causados pelas drogas.
Chamar isso de política pública é um insulto.
Não é cuidado. É banalização da tragédia
A cartilha não mostra o depois. Não mostra o jovem que não volta para casa. Não mostra o pai que perde o emprego. Não mostra a mãe que passa noites em claro esperando uma ligação que não chegue do IML. Ensinar “como usar” ignora deliberadamente o custo humano do uso.
Redução de danos não pode ser confundida com redução da responsabilidade do Estado. Quando uma instituição pública ensina como consumir drogas, ela deixa de atuar como guardiã da saúde coletiva e passa a operar como agente de normalização do vício.
A linha entre prevenção e incentivo foi cruzada.
Quando a denúncia incomoda, tentam silenciar
O episódio se agrava quando um médico presente decidiu registrar a situação em vídeo. Em vez de diálogo ou transparência, houve tentativa de obstrução da gravação. Um gesto pequeno, mas revelador: quem acredita estar do lado certo da história não teme a luz.
O confronto verbal que se seguiu expôs o abismo entre discurso e realidade. Ao ser questionada, uma médica favorável à cartilha ouviu uma pergunta que não cabe em panfletos nem seminários:
“Quantas pessoas cardíacas você precisou reanimar porque estavam morrendo de overdose?”
Essa é a pergunta que ecoa nos corredores dos hospitais — e que parece ausente nos salões refrigerados do poder.
O Estado não pode desistir das pessoas
Legalizar o debate não significa legalizar a indiferença. O poder público não pode tratar a droga como um detalhe técnico, desconectado de suas consequências devastadoras. Quando a Câmara Municipal transforma o uso de entorpecentes em material didático, ela envia uma mensagem clara: isso é normal, isso é aceitável, isso faz parte.
Não faz.
O papel do Estado é prevenir, tratar, recuperar e proteger — não ensinar o caminho do abismo com linguagem institucional.
Curitiba merece mais do que isso. O Brasil também.
Porque quando o Estado ensina a cheirar, alguém, em algum lugar, aprende a morrer.







