China vive seu “inverno demográfico” e enfrenta o risco de envelhecer antes de enriquecer
A China está ficando mais silenciosa. Não nas fábricas, nem nas cidades, mas nos berços.
Pelo quarto ano consecutivo, a população do país encolheu. Em 2025, nasceram apenas 7,92 milhões de bebês, uma queda de 17% em relação ao ano anterior — o menor número desde 1949, quando a República Popular foi fundada. Para cada mil chineses, apenas cinco nasceram, enquanto oito morreram. O resultado é um déficit populacional de 3,4 milhões de pessoas em apenas um ano.
Em termos humanos, é como se quase duas Curitibas inteiras simplesmente desaparecessem do mapa.
Esse não é um fenômeno estatístico. É um sinal histórico.
Um problema que não se resolve com propaganda
Durante décadas, Pequim combateu o crescimento populacional com mão de ferro. A política do filho único moldou gerações, alterou estruturas familiares e consolidou uma cultura urbana onde ter filhos passou a ser visto como risco financeiro, não como projeto de vida.
Agora, o governo tenta o movimento inverso: subsídios, incentivos fiscais, campanhas de natalidade, benefícios em moradia, educação e até discussões sobre taxar métodos contraceptivos. Nada funcionou.
Porque o problema não é ideológico.
É econômico, social e estrutural.
Criar um filho na China custa hoje 6,3 vezes a renda média anual de um cidadão — mais do que nos Estados Unidos ou no Japão. Em um país onde a competição escolar é brutal, a moradia é cara e o mercado de trabalho é cada vez mais instável, ter filhos virou um luxo.
A geração jovem simplesmente fez as contas — e desistiu.
O paradoxo chinês: potência sem herdeiros
A China construiu uma das maiores economias do planeta apoiada em três pilares:
- Mão de obra abundante
- Disciplina produtiva
- Consumo interno crescente
Todos eles agora estão ameaçados.
Com menos jovens entrando no mercado de trabalho e a previsão de 400 milhões de idosos até 2035, o país caminha para uma equação perigosa:
menos trabalhadores sustentando mais aposentados.
O resultado inevitável é:
- Pressão sobre previdência
- Queda no crescimento econômico
- Menor inovação
- Maior dependência de automação
- E risco de estagnação prolongada
É o temor que ronda Pequim: envelhecer antes de enriquecer.
Quando a demografia vira destino

A ONU projeta que, até o final do século, o número de mulheres em idade reprodutiva na China cairá para menos de 100 milhões — uma redução de dois terços. Isso significa que, mesmo que todas quisessem ter filhos, o próprio corpo demográfico do país já não permitiria uma recuperação rápida.
A demografia não é como a economia:
não se estimula com decreto, não se corrige com juros e não se resolve com propaganda.
Ela apenas segue.
E, quando muda, muda por décadas.
O que a China está nos ensinando
O caso chinês revela algo que vai além da China:
Uma sociedade pode crescer economicamente e, ainda assim, perder a vontade de se perpetuar.
O berço vazio não é só sinal de crise financeira. É sinal de crise de perspectiva. Quando o futuro parece mais pesado do que promissor, as pessoas param de gerar o amanhã.
Um inverno que não é apenas chinês
Japão, Coreia do Sul, Europa e agora a China compartilham o mesmo destino: populações encolhendo, envelhecendo e questionando o próprio modelo de vida.
A diferença é que, no caso chinês, isso acontece na segunda maior economia do planeta — e num país que ainda sonha em liderar o século XXI.
Sem crianças, não há século.
Sem jovens, não há potência duradoura.
O silêncio que vem dos berços
O maior perigo para a China não é uma guerra, nem uma crise financeira, nem uma disputa geopolítica.
É o som que não se ouve mais:
o choro de um recém-nascido.
Porque quando os berços ficam vazios, o futuro começa a faltar.








