Não é guerra tribal.
Não é falha cultural.
Não é azar geográfico.
A destruição prolongada da Nigéria é resultado de escolhas políticas, interesses econômicos e padrões históricos que se repetem sempre nos mesmos lugares — e beneficiam sempre os mesmos atores.
A Nigéria não está colapsando.
Ela está sendo consumida.
Uma nação costurada para não durar
A Nigéria nasce oficialmente em 1914, quando o Império Britânico decide fundir mais de 250 grupos étnicos e religiosos distintos em um único território administrativo. Não para formar uma nação, mas para simplificar a exploração colonial.
O Norte foi mantido pobre e dependente.
O Sul, explorado economicamente.
A divisão não foi acidente.
Foi método.
Essa fratura estrutural nunca foi resolvida porque nunca interessou aos que lucravam com ela.
O petróleo que comprou o silêncio
Com a descoberta do petróleo no Delta do Níger, a Nigéria passa a ocupar posição estratégica no mercado energético global. Ao mesmo tempo, comunidades inteiras passam a viver sobre terras contaminadas, rios mortos e meios de subsistência destruídos.
Empresas multinacionais operaram por décadas com:
- vazamentos recorrentes,
- degradação ambiental documentada,
- repressão a protestos locais.
O caso de Ken Saro-Wiwa, escritor e ativista executado em 1995 após denunciar crimes ambientais ligados à exploração de petróleo, não foi um erro histórico.
Foi um recado.
Quando comunidades denunciam, são ignoradas.
Quando resistem, são reprimidas.
Quando morrem, viram nota de rodapé.
O Norte abandonado e o extremismo previsível
Enquanto bilhões fluíam pelo petróleo do Sul, o Norte da Nigéria afundava em pobreza crônica, desemprego e ausência do Estado. Esse vácuo social criou o terreno ideal para o surgimento de grupos extremistas como o Boko Haram.
O terrorismo não nasceu do nada.
Ele brotou onde o Estado desapareceu.
A partir de 2011, com a queda da Líbia, armas inundaram o Sahel. O efeito dominó atingiu a Nigéria em cheio. Mais uma vez, decisões externas produziram caos interno — e ninguém assumiu o custo.
Quando a guerra vira negócio
Com o avanço da violência, entra em cena outro ator silencioso: a indústria da segurança.
Contratos de combate ao terrorismo, treinamento militar, venda de armamentos, tecnologia de vigilância. Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia, China — todos oferecem “soluções”.
Mas o conflito nunca termina.
A proteção nunca chega às aldeias certas.
E os civis continuam morrendo.
Porque guerra curta é fracasso comercial.
Guerra longa é modelo de negócio.
Ajuda que só chega quando convém
Relatórios da ONU, da Anistia Internacional e de organizações de monitoramento de conflitos indicam há mais de uma década milhares de mortes civis anuais na Nigéria. O mundo sempre soube.
A mobilização internacional só ganha força quando:
- fluxos migratórios ameaçam outras regiões,
- rotas comerciais são afetadas,
- ou o caos começa a “transbordar”.
Não é solidariedade.
É contenção de risco.
O padrão que ninguém pode fingir não ver
Nigéria não é exceção.
É parte de um roteiro conhecido:
- Iraque: petróleo e reconstrução lucrativa
- Afeganistão: guerra infinita e contratos militares
- Síria: guerra por procuração e abandono civil
- Congo: minérios estratégicos e silêncio global
- Sahel: instabilidade crônica e militarização permanente
Mudam os mapas.
O mecanismo permanece.
A verdade que não cabe em discurso
A Nigéria não sangra porque “ninguém sabe”.
Ela sangra porque muitos sabem — e esperam.
Esperam até que:
- o número de mortos deixe de chocar,
- a tragédia se normalize,
- a morte vire estatística.
Eles não erram o timing.
Eles calculam o momento em que a vida deixa de valer manchete.
Fechamento
A Nigéria não é um fracasso do presente.
É um sucesso do passado colonial, extrativista e cínico que ainda organiza o mundo.
Enquanto crianças crescem entre o medo, a fome e o deslocamento, relatórios circulam, contratos são renovados e discursos humanitários são repetidos em salas climatizadas.
A pergunta que realmente incomoda não é por que a Nigéria sofre há tanto tempo.
A pergunta é:
quem lucrou enquanto ela sangrava — e quem só decidiu agir quando o sangue começou a atravessar fronteiras?
Porque quando a morte é distante, ela vira estatística.
E quando vira estatística, deixa de ser urgência.
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