CPMI DO INSS: QUANDO O ESCÂNDALO É BILIONÁRIO, A JUSTIÇA ANDA DEVAGAR

A CPMI do INSS aprovou pedidos de prisão. Aprovou quebras de sigilo. Aprovou retenção de passaportes.
O noticiário chamou de “avanço”.

O cidadão comum chamou de déjà vu.

Porque, no Brasil, escândalos contra pobres e aposentados sempre seguem o mesmo roteiro: começam com indignação, passam por discursos inflamados, acumulam caixas de documentos — e terminam em silêncio, prescrição ou absolvição técnica.

O esquema investigado não é sofisticado. É perverso.
Tirava dinheiro direto da aposentadoria, o último fio de segurança de quem já trabalhou a vida inteira. Não foi um desvio abstrato, nem uma pedalada contábil: foi mês a mês, centavo por centavo, no contracheque de quem mal consegue pagar remédio.

E isso não aconteceu por acaso.

Aconteceu porque alguém autorizou,
porque alguém assinou,
porque alguém fiscalizou mal — ou fingiu fiscalizar.

Associações de fachada não operam sozinhas.
Empresas não movimentam milhões sem passar por bancos.
Descontos em folha não surgem sem aval administrativo.

O sistema inteiro precisou cooperar — ativamente ou por conveniência.

A CPMI agora pede prisões. Ótimo.
Mas o país já aprendeu a traduzir esse gesto: pedido não é punição.

A bola está com o STF. Sempre está.
E é aí que mora o ceticismo nacional.

Quantos pedidos viram decisões?
Quantas decisões viram denúncias?
Quantas denúncias viram condenações?
E, sobretudo: quantas condenações chegam antes da prescrição?

O Brasil não sofre de falta de investigações.
Sofre de excesso de impunidade sofisticada.

Quando o crime é pequeno, a resposta é rápida.
Quando é bilionário, surgem recursos, nulidades, debates técnicos, disputas de competência, mudanças de relator e o velho inimigo da justiça: o tempo.

Enquanto isso, o aposentado segue olhando o extrato e se perguntando se foi enganado — de novo.

Há algo ainda mais grave: a naturalização.
Desviar do INSS parece ter virado um crime de baixo risco e alto retorno.
E isso só acontece quando o sistema aprende que não dói.

A CPMI pode — e deve — escancarar o esquema.
Mas se o desfecho for apenas mais um relatório bem escrito e nenhuma consequência real, a mensagem será cristalina:

Compensa roubar dos velhos.
Compensa apostar na lentidão.
Compensa confiar que o sistema vai cansar antes de punir.

A pergunta não é se houve crime.
Isso já está claro.

A pergunta é outra — e bem mais incômoda:

O Estado brasileiro está disposto a punir quem rouba bilhões dos aposentados
ou continuará punindo apenas quem rouba pouco e sem proteção?

Até agora, a história sugere cautela.
E o silêncio futuro pode ser a resposta mais barulhenta de todas.

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  • Inês Theodoro

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