Por trás do discurso sustentável que antecede a COP30, uma corrida administrativa por prazos pode estar abrindo brechas perigosas para gastos questionáveis, licitações apressadas e projetos sem fiscalização adequada.
Uma contagem regressiva que não aparece nos palcos oficiais
Enquanto autoridades anunciam metas ambientais ambiciosas e discursos diplomáticos se intensificam, uma movimentação menos visível acontece nos bastidores: estados e municípios iniciaram uma maratona para viabilizar obras de infraestrutura, mobilidade, saneamento e urbanização ligadas direta ou indiretamente ao evento climático global.
Fontes técnicas ouvidas sob reserva relatam que prazos considerados “impraticáveis” em condições normais passaram a ser tratados como urgentes. O motivo: ninguém quer chegar ao evento internacional com obras incompletas, falhas logísticas ou estruturas improvisadas.
O problema é que, historicamente, quando o relógio vira prioridade absoluta, a transparência costuma ser a primeira vítima.
Contratos acelerados e fiscalização reduzida
Levantamentos preliminares em portais de transparência estaduais indicam aumento recente de processos classificados como:
- contratação emergencial
- dispensa de licitação
- regime especial de execução
Especialistas em direito administrativo afirmam que esses mecanismos são legais — mas apenas quando usados de forma excepcional e justificada. Quando se tornam regra, passam a ser sinal de alerta.
Um auditor público consultado afirmou:
“Eventos internacionais costumam gerar o mesmo padrão: urgência institucional, pressão política e fluxo elevado de recursos. É a combinação clássica de risco.”
O padrão que investigações históricas revelam
Grandes eventos passados mostram que o risco não é teórico. Auditorias posteriores frequentemente identificam:
- sobrepreço em contratos
- aditivos financeiros sucessivos
- obras entregues parcialmente
- estruturas abandonadas após o evento
O fenômeno é conhecido entre órgãos de controle como “efeito vitrine” — quando a prioridade não é eficiência pública, mas aparência institucional.
O paradoxo climático
Existe ainda um ponto sensível: a contradição entre discurso e prática.
Enquanto a conferência propõe soluções para reduzir impactos ambientais globais, obras aceleradas sem planejamento adequado podem gerar:
- desmatamento urbano
- descarte irregular de resíduos
- ocupação de áreas frágeis
- aumento de emissões por construções emergenciais
Ou seja: preparar um evento climático pode, ironicamente, provocar impactos ambientais locais.





