Enquanto os holofotes estão nas capitais, a vigilância avança onde ninguém olha.
Pouco noticiado. Quase nunca debatido. Mas já em curso.
Municípios médios e pequenos pelo Brasil estão adotando, de forma acelerada e silenciosa, tecnologias típicas de Estados de exceção digital:
- Reconhecimento facial em vias públicas
- Câmeras com inteligência artificial
- Monitoramento de dados urbanos e comportamentais
Tudo isso sem debate público, sem audiência popular, sem lei municipal específica, sem transparência sobre armazenamento, uso ou compartilhamento dos dados.
A vigilância não chegou primeiro às capitais.
Chegou onde a imprensa não pisa.
Onde não há repórteres fixos.
Onde a população confia demais e pergunta de menos.
O novo laboratório
Cidades pequenas viraram o campo de testes ideal.
Prefeitos anunciam “modernização”.
Secretarias falam em “segurança inteligente”.
Empresas vendem “soluções inovadoras”.
Mas ninguém responde o essencial:
- Quem controla esses dados?
- Por quanto tempo são armazenados?
- Quem tem acesso?
- Com que critério alguém passa a ser “suspeito”?
- E quem fiscaliza o fiscal?
Na prática, cria-se uma infraestrutura de vigilância permanente, sem os freios legais que deveriam vir antes — não depois.
Sem lei, sem limite
Em muitos desses municípios:
- Não existe legislação local regulando reconhecimento facial
- Não há conselho independente de fiscalização
- Não há política clara de proteção de dados
- Não há prestação de contas à população
O cidadão vira objeto de monitoramento, não sujeito de direitos.
E o mais grave: tudo isso acontece fora do radar nacional, longe dos editoriais, dos grandes jornais, das CPIs e das manchetes.
O perigo do silêncio
Históricamente, abusos não começam em grandes centros.
Começam em zonas de teste.
Começam onde a resistência é menor.
Onde a pergunta “por quê?” não é feita.
Quando a vigilância se normaliza em cidades pequenas, ela não para ali.
Ela escala.
Ela se integra.
Ela se torna padrão.
E quando chega às capitais, já vem legitimada pelo argumento mais perigoso de todos:
“Isso já funciona em várias cidades.”
Segurança não pode ser sinônimo de submissão
Segurança pública é necessária.
Tecnologia pode ajudar.
Mas sem lei, sem debate e sem controle, tecnologia vira instrumento de poder — não de proteção.
O problema não é a câmera.
É quem a controla.
O problema não é a IA.
É a ausência de limite humano, jurídico e democrático.
A vigilância chegou primeiro onde a imprensa não olha.
E o silêncio, nesse caso, não é neutro.
É cúmplice.







