Não escrevemos isto porque acreditamos que o mundo vai mudar.
Escrevemos porque fingir normalidade se tornou impossível.
Enquanto o calendário avança e mais um ano se anuncia, há lugares onde o tempo parou — não por falta de futuro, mas por excesso de morte. No Sudão, comunidades inteiras estão sendo eliminadas não apenas fisicamente, mas historicamente. Corpos enterrados a céu aberto, famílias escondidas em valas por dias, sem água, sem comida, aguardando a noite para tentar fugir. Vilas incendiadas. Documentos destruídos. Poços de água derrubados. Hospitais e igrejas atacados.
Isso não é caos.
É método.
Quando se apagam registros, apaga-se a prova de existência. Quando se destrói água, destrói-se a continuidade da vida. Quando se bloqueiam rotas de fuga, elimina-se a possibilidade de testemunho. O que está em curso não é apenas um massacre — é um projeto de desaparecimento.
E o mundo sabe.
Sabe, mas administra.
Sabe, mas negocia.
Sabe, mas adia.
A burocracia internacional transformou a urgência humana em procedimento. Autorizações matam mais lentamente que balas, mas com igual eficiência. E a mídia, ao escolher o silêncio ou a superficialidade, completa o ciclo: o que não é visto, não exige resposta.
Não se trata apenas da África. O que acontece ali está ligado ao que ocorreu nas Américas, ao que se tolera na Europa e ao que se tornará aceitável em qualquer lugar onde vidas não representem valor estratégico. Depois de 2020, o mundo aprendeu algo perigoso: o controle pode ser mantido pelo medo, pela exaustão e pela desumanização seletiva. Perder esse controle novamente tornou-se um risco que muitos não estão dispostos a correr — mesmo que o preço seja humano.
A contradição é brutal.
Enquanto povos são apagados, celebramos feitos extraordinários: na Etiópia, milhões de toneladas de solo foram movidas, rios voltaram a correr, florestas nasceram onde havia terra morta. A prova concreta de que a humanidade não é incapaz de cuidar, regenerar e reconstruir.
Portanto, sejamos honestos:
o problema nunca foi falta de capacidade.
Foi a decisão silenciosa sobre quem merece ser salvo.
À medida que mais um ano se aproxima, multiplicam-se discursos de esperança, progresso e evolução. Mas evolução que aceita o extermínio de povos como ruído de fundo não é evolução — é sofisticação da barbárie. A verdadeira falência da nossa época não é tecnológica, econômica ou científica. É ética.
Este texto não foi escrito para confortar.
Foi escrito para registrar.
Para que no futuro não se diga que ninguém sabia.
Para que o silêncio não seja confundido com ignorância.
Para que reste ao menos um vestígio de lucidez em um tempo que normalizou o inaceitável.
Se ainda somos capazes de sentir incômodo, vergonha e responsabilidade, então ainda há algo a salvar. Se não — então o colapso já não será surpresa, apenas consequência.
Não pedimos indignação passageira.
Pedimos consciência durável.
Porque quando a barbárie deixa de causar desconforto,
ela não precisa mais se esconder.
E esse é o verdadeiro ponto de não retorno.







