“A Gaiola Dourada da Riqueza Digital”

Nunca houve tantos milionários. E, paradoxalmente, nunca houve tanta gente vazia.

A internet criou uma nova aristocracia: os milionários digitais. Influencers, traders, gurus, youtubers, donos de plataformas, vendedores de promessas embaladas em cursos, métodos e “mentalidades vencedoras”. Gente que transformou atenção em moeda e algoritmo em altar. O dinheiro vem rápido, em cifras que nossos avós jamais imaginariam. Mas a pergunta incômoda permanece, ecoando num silêncio que o feed não consegue esconder: pra quê?

Antes da internet, a pergunta “quem é você?” vinha antes de “quanto você ganha?”. Havia identidade antes de vitrine. O sujeito era professor, pedreiro, agricultor, médico, jornalista. O trabalho não era só renda — era narrativa, pertencimento, função social. Hoje, muita gente é apenas “marca pessoal”. Um perfil. Um número. Um produto.

A internet não criou o vazio, mas deu palco a ele. Ela ensinou que propósito pode ser substituído por performance, que sentido pode ser trocado por engajamento, que valor humano pode ser medido em seguidores. E o resultado é uma geração rica em dinheiro, pobre em significado.

Milionários da internet falam muito sobre liberdade financeira, mas raramente falam sobre liberdade existencial. Ganhar milhões sem saber quem você é não é vitória — é fuga bem remunerada. É anestesia de luxo. É um vício socialmente aceito: trabalhar obsessivamente para não encarar o espelho.

E aqui está a verdade que poucos têm coragem de dizer: nem todo dinheiro é construção; muito dele é distração. Distrai do medo de ser comum. Distrai da pergunta essencial: “Se o dinheiro sumisse amanhã, quem sobra?”

Antes da internet, o fracasso era mais silencioso, mas também era mais humano. Hoje, o sucesso é barulhento — e muitas vezes oco. A ostentação virou prova de existência. Se não postar, não viveu. Se não monetizar, não valeu.

A tragédia não está em ficar rico. A tragédia está em reduzir a vida a isso. Em acreditar que nascer, crescer, vender, escalar, faturar e morrer é um plano suficiente para um ser humano consciente. Não é.

Você não está neste planeta para bater meta de anúncios. Você não nasceu para alimentar plataformas que lucram com sua ansiedade. Você não é um funil de vendas ambulante. Ou pelo menos, não deveria ser.

A internet prometeu democratizar oportunidades. E cumpriu — parcialmente. Mas também roubou algo silencioso: o tempo de pensar, o direito de errar longe dos holofotes, a construção lenta do “quem sou eu”. Tudo agora precisa virar conteúdo. Até a dor. Até o luto. Até a fé.

Talvez a pergunta mais subversiva hoje não seja “como ficar rico?”, mas “quem eu era antes de querer provar algo para todo mundo?”
Quem você era antes de medir sua importância por curtidas?
Quem você era antes de confundir propósito com faturamento?

No fim, os cofres cheios não garantem uma vida cheia. E a internet, com todo seu brilho, ainda não conseguiu responder a pergunta mais antiga da humanidade: o que dá sentido a estar vivo?

Dinheiro compra alcance.
Mas não compra essência.
E sem essência, até milhões pesam como uma prisão dourada.

.http://jornalfactual.com.br

WhatsApp Facebook Twitter Email Baixar Imagem
  • Inês Theodoro

    Quem Somos Jornal Factual — Informação limpa. Jornalismo responsável. O Jornal Factual é um veículo digital independente, dedicado à cobertura criteriosa dos acontecimentos políticos, econômicos, sociais e culturais do Tocantins e do Brasil. Nascemos com um compromisso claro: entregar informação confiável, apurada e livre de interferências. Nosso trabalho se apoia em três pilares essenciais: Imparcialidade, Ética e Confiabilidade. No Jornal Factual, buscamos ser um ponto de equilíbrio em um ambiente digital carregado de ruído, polarização e desinformação. Somos Factual. Somos jornalismo que respeita você.

    Related Posts

    Menos agências, mais custos: a matemática perversa do sistema bancário

    Venderam como modernização. Chamaram de eficiência. Disseram que fechar agências seria bom para todos.Mas a conta real é outra — e ela não fecha para o consumidor. Nos últimos anos,…

    Quando a verdade não ameaça, ela vira espetáculo

    Há algo profundamente revelador no fato de documentos envolvendo crimes extremos, redes de abuso e figuras poderosas estarem vindo a público — sem que nada aconteça. Não é coragem.Não é…

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

    You Missed

    Menos agências, mais custos: a matemática perversa do sistema bancário

    Menos agências, mais custos: a matemática perversa do sistema bancário

    Folia com segurança: confira dicas para evitar acidentes com a rede elétrica durante o carnaval

    Folia com segurança: confira dicas para evitar acidentes com a rede elétrica durante o carnaval

    Febre do emagrecimento acende alerta: Anvisa associa canetas emagrecedoras a risco de pancreatite

    Febre do emagrecimento acende alerta: Anvisa associa canetas emagrecedoras a risco de pancreatite

    Queda de QI e crise educacional: por que a geração mais conectada da história está aprendendo menos

    Queda de QI e crise educacional: por que a geração mais conectada da história está aprendendo menos

    74% das pessoas atendidas pela Defensoria Pública vivem com renda de até 1 salário mínimo

    74% das pessoas atendidas pela Defensoria Pública vivem com renda de até 1 salário mínimo

    Quando a verdade não ameaça, ela vira espetáculo

    Quando a verdade não ameaça, ela vira espetáculo