A engrenagem invisível dos impostos: o que mudou na taxação brasileira nos últimos três anos — e quase ninguém percebeu

Imagem ilustrativa sobre a evolução da carga tributária no Brasil ao longo das últimas décadas.

Por trás de recordes de arrecadação, reformas estruturais e medidas pouco debatidas, o sistema tributário brasileiro passou por uma das transformações mais profundas das últimas décadas.


Recordes históricos enquanto o debate público olha para outro lado

Desde 2023, o Brasil vem registrando sucessivos recordes de arrecadação federal. Dados oficiais da Receita Federal mostram que 2025 fechou com cerca de R$ 2,89 trilhões arrecadados, maior valor já registrado. Em janeiro de 2026, outro marco: o melhor resultado para o mês em toda a série histórica.

Embora números assim costumem ser atribuídos apenas ao crescimento econômico, especialistas apontam outro fator determinante: mudanças legislativas e administrativas que aumentaram a capacidade de cobrança do Estado.


Reforma tributária: simplificação para o sistema, complexidade na transição

A aprovação da reforma tributária do consumo em 2023 — sancionada pelo presidente Luiz Inacio Lula da Silva — criou um novo modelo de impostos que substituirá gradualmente cinco tributos antigos por dois novos (CBS e IBS).

Oficialmente, o objetivo é simplificar. Na prática, porém, a fase de transição até 2033 introduz:

  • novas regras de cálculo
  • mudanças de alíquotas setoriais
  • redistribuição de arrecadação entre estados e municípios

Economistas afirmam que períodos de transição tributária costumam gerar aumentos indiretos de carga, porque ajustes compensatórios são feitos para evitar perda de receita pública.


Mudanças que aumentaram arrecadação sem parecer “aumento de imposto”

Nem toda elevação de receita veio de novas taxas explícitas. Algumas decisões técnicas tiveram impacto enorme:

1. Retorno do voto de qualidade no CARF
O CARF julga disputas entre contribuintes e governo. Antes, empates favoreciam o contribuinte. Hoje favorecem a União.
➡️ Resultado: bilhões a mais potencialmente recuperados em autuações.

2. Tributação de fundos exclusivos e offshores
Investimentos antes pouco tributados passaram a pagar entre 15% e 20% de IR.

3. Limitação do benefício fiscal do JCP
Empresas passaram a ter menos vantagens tributárias ao distribuir lucros.

Nenhuma dessas medidas aparece diretamente na nota fiscal do consumidor — mas todas aumentam a arrecadação federal.


Reforma do Imposto de Renda: alívio para uns, compensação para outros

A reforma aprovada em 2025 trouxe mudanças relevantes:

  • isenção total para quem ganha até R$ 5 mil por mês
  • redução gradual até cerca de R$ 7.350
  • imposto mínimo para renda anual acima de R$ 600 mil
  • taxação de dividendos elevados

O discurso oficial foi de justiça tributária. Analistas fiscais observam que a medida redistribui a base de arrecadação, mas não necessariamente reduz a carga total do sistema — apenas muda quem paga.


Taxações que afetaram o dia a dia silenciosamente

Algumas medidas com impacto direto no cotidiano tiveram pouca repercussão proporcional:

  • reoneração gradual da folha de pagamento empresarial
  • retorno parcial de tributos sobre combustíveis
  • novas regras para compras internacionais
  • tributação mais clara sobre criptoativos
  • impostos e taxas regulatórias para empresas de apostas online

Separadamente parecem pequenas. Somadas, aumentam o custo estrutural da economia.


O freio político: quando o Congresso barra aumentos

Nem todas as propostas avançaram. Em 2025, o Congresso Nacional derrubou integralmente um decreto que ampliaria o IOF sobre operações financeiras.

O episódio revelou algo relevante:
➡️ existe espaço político para aumento de arrecadação — mas há limite institucional.


O dado que resume tudo

A carga tributária brasileira passou de cerca de 30% para mais de 32% do PIB entre 2023 e 2024.

Pode parecer pouco, mas em termos econômicos isso representa centenas de bilhões adicionais transferidos da sociedade para o Estado.


Conclusão — o que realmente mudou

O debate público costuma tratar impostos como algo simples: aumentou ou diminuiu.
Os dados mostram outra realidade.

Nos últimos três anos, o Brasil viveu um movimento mais sofisticado:

  • menos aumentos diretos visíveis
  • mais ajustes técnicos estruturais
  • ampliação de base tributária
  • redistribuição de quem paga

Em vez de uma alta única e explícita, ocorreu uma recalibração silenciosa do sistema.

E é exatamente por isso que muita gente sente que paga mais impostos — mesmo quando não consegue apontar qual subiu.

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  • Inês Theodoro

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