Falsos médicos atenderam milhares de pacientes em São Paulo. O que falta não é tecnologia — é coragem política.
O Brasil acordou estarrecido com a revelação de que falsos médicos atenderam cerca de 9 mil pacientes em São Paulo, enquanto a polícia investiga ao menos oito mortes possivelmente relacionadas a esses atendimentos. O espanto, no entanto, não pode servir de álibi para a inércia. A pergunta central já não é como isso foi possível, mas por que o Estado permitiu que isso continuasse acontecendo.
Não se trata de uma falha isolada. Trata-se de um fracasso institucional.
Um sistema que aceita o risco como regra
Há anos, conselhos profissionais, especialistas e órgãos de controle alertam para a fragilidade da fiscalização na saúde pública, especialmente em unidades terceirizadas, UPAs e serviços geridos por Organizações Sociais. Mesmo assim, nenhum sistema nacional integrado de validação profissional foi implementado.
O resultado é conhecido — e agora mensurável:
pessoas sem formação, sem habilitação e sem qualquer preparo clínico decidindo sobre a vida de pacientes.
Isso não é descuido.
É negligência estrutural.
O discurso da surpresa não convence mais
Autoridades se dizem “surpresas”, “indignadas” e “rigorosas”. Mas a verdade é incômoda:
o poder público sempre soube do risco.
O Brasil possui:
- CPF e identificação biométrica
- Registros profissionais digitais
- Base de diplomas do MEC
- CNES e sistemas hospitalares informatizados
O que não possui é vontade política de integrar, fiscalizar e responsabilizar.
Aplicar controle real significaria:
- Revelar contratos irregulares
- Expor gestões negligentes
- Romper modelos precários de terceirização
- Assumir erros acumulados por décadas
E isso, ao que tudo indica, segue sendo evitado.
Quando a omissão mata, ela também é crime
Se as investigações confirmarem que mortes ocorreram por atendimentos realizados por falsos médicos, o debate muda de patamar. Já não se fala apenas em fraude, mas em responsabilidade criminal por omissão do Estado.
Gestores que ignoraram alertas, flexibilizaram controles ou fecharam os olhos para irregularidades não podem se esconder atrás de notas oficiais. A vida humana exige mais do que comunicados genéricos e promessas futuras.
O que precisa ser feito — agora
Não amanhã. Não “após apuração”. Agora.
- Implantação imediata de validação biométrica nacional para profissionais de saúde
- Integração obrigatória entre CRM, MEC, CPF e sistemas hospitalares
- Auditoria emergencial em contratos terceirizados
- Afastamento e responsabilização de gestores negligentes
- Transparência total sobre onde e por quanto tempo esses falsos médicos atuaram
Tudo isso é possível já. O que falta não é solução. Falta decisão.
O silêncio custa vidas
Cada dia sem ação concreta mantém um sistema que normaliza o risco, transfere responsabilidades e transforma o cidadão em cobaia. Não é aceitável que, em 2025, o paciente ainda precise confiar na sorte para saber se quem o atende é, de fato, médico.
Este editorial é um alerta, mas também uma cobrança:
ou o Estado age agora, ou se tornará cúmplice de sua própria omissão.
A sociedade já pagou caro demais.







