Quando o futuro é imposto: o que outras reconstruções pós-guerra ensinam sobre Gaza

Terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Gaza não seria o primeiro território devastado pela guerra a ter seu futuro desenhado por atores externos. Da Bósnia ao Iraque, do Kosovo ao Líbano, a história recente está repleta de reconstruções conduzidas sob promessas de estabilidade, desenvolvimento e modernização — muitas delas marcadas por exclusão social, dependência política e frustrações profundas. Ao olhar para esses precedentes, surge uma pergunta inevitável: Gaza está prestes a repetir um roteiro já conhecido?


Reconstruir é sempre um ato político

A reconstrução pós-guerra costuma ser apresentada como uma tarefa técnica: levantar casas, restaurar serviços, reativar a economia. Mas a história mostra que ela é, antes de tudo, um ato político.

Quem reconstrói decide:

  • quais instituições sobrevivem,
  • quais elites emergem,
  • quais populações retornam,
  • e quais ficam permanentemente à margem.

Em territórios onde a soberania é frágil ou inexistente, essas decisões raramente são tomadas por quem vive ali.


Bósnia: paz formal, dependência permanente

Após a guerra dos anos 1990, a Bósnia-Herzegovina recebeu bilhões de dólares em ajuda internacional. O Acordo de Dayton encerrou o conflito armado, mas instituiu um modelo político altamente tutelado por atores externos.

Três décadas depois:

  • o país permanece fragmentado,
  • dependente de supervisão internacional,
  • com crescimento econômico limitado,
  • e uma juventude que emigra em massa.

A reconstrução funcionou no curto prazo, mas criou um Estado incapaz de decidir plenamente seu próprio futuro.

A lição é clara: estabilidade imposta pode evitar a guerra, mas raramente constrói autonomia.


Iraque: reconstrução acelerada, colapso social

No Iraque pós-2003, a promessa era reconstruir melhor e mais rápido. O que se seguiu foi uma das maiores operações de privatização e contratação externa da história recente.

O resultado:

  • serviços públicos desmontados,
  • corrupção sistêmica,
  • exclusão de setores inteiros da população,
  • e um vácuo de legitimidade que alimentou novos conflitos.

A infraestrutura foi parcialmente refeita, mas o tecido social se rompeu ainda mais.

Reconstruir sem legitimidade local não estabiliza — aprofunda crises.


Beirute: a cidade refeita que não coube em seus habitantes

Após a guerra civil libanesa, o centro de Beirute foi reconstruído como vitrine de modernidade. Arranha-céus, zonas comerciais e empreendimentos de alto padrão substituíram bairros inteiros.

O preço:

  • antigos moradores expulsos pelo custo de vida,
  • privatização do espaço urbano,
  • memória coletiva apagada em nome da valorização imobiliária.

Beirute renasceu fisicamente, mas perdeu parte de sua alma social.

O risco de Gaza seguir esse caminho é evidente quando se fala em turismo de luxo e monetização do litoral sem garantias sociais claras.


Kosovo: soberania limitada, futuro suspenso

No Kosovo, a reconstrução veio acompanhada de administração internacional direta. A segurança melhorou, instituições foram criadas, mas a soberania permaneceu incompleta.

Décadas depois:

  • o território ainda depende de decisões externas,
  • enfrenta reconhecimento internacional limitado,
  • e vive entre avanços institucionais e frustração política.

A reconstrução garantiu ordem, mas não resolveu o impasse do pertencimento político.


O padrão que se repete

Apesar das diferenças históricas e culturais, esses casos compartilham elementos comuns:

  • reconstruções conduzidas de fora para dentro;
  • priorização de estabilidade e mercado sobre participação popular;
  • decisões rápidas para satisfazer interesses estratégicos;
  • exclusão gradual das populações mais vulneráveis;
  • promessa de futuro que nunca se torna plenamente presente.

Quando o futuro é imposto, ele raramente é vivido de forma justa.


Gaza diante do espelho da história

O plano discutido para Gaza carrega sinais claros desses precedentes:

  • tutela externa disfarçada de reconstrução;
  • condicionantes políticos difíceis de cumprir;
  • ênfase em tecnologia e investimento antes de direitos;
  • silêncio sobre soberania e autodeterminação.

A história não condena Gaza a repetir esses erros — mas alerta sobre o custo de ignorá-los.


Existe outro caminho?

Sim, mas ele exige escolhas menos confortáveis para os atores externos:

  • participação real da população local;
  • reconstrução guiada por direitos, não apenas por eficiência;
  • garantias de retorno e permanência;
  • respeito à identidade urbana e social;
  • e, acima de tudo, reconhecimento político.

Reconstruir com um povo é mais lento, mais complexo e menos lucrativo.
Mas é o único caminho sustentável.


Conclusão: o futuro não pode ser um projeto alheio

Gaza não precisa apenas de prédios novos. Precisa de legitimidade, pertencimento e voz.

A história mostra que reconstruções impostas criam cidades funcionais, mas sociedades fraturadas. Criam infraestrutura, mas não confiança. Criam vitrines, mas não lares.

Se o futuro de Gaza for decidido sem Gaza, ele poderá até brilhar em maquetes e apresentações — mas continuará instável no mundo real.

E a história, mais uma vez, cobrará a conta.

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  • Inês Theodoro

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