Se a primeira pergunta sobre a reconstrução de Gaza é “para quem?”, a segunda — ainda mais sensível — é “quem manda?”. Por trás dos discursos sobre tecnologia, prosperidade e futuro, o plano bilionário para a Faixa de Gaza revela uma disputa silenciosa por controle político, econômico e territorial.
O vácuo de poder como oportunidade
Gaza vive hoje um vácuo político extremo.
Não há governo palestino unificado, não há consenso internacional sobre quem deve administrar o território no pós-guerra e não há acordo mínimo entre os principais atores regionais.
Esse vácuo não paralisa projetos externos — ele os atrai.
Historicamente, regiões devastadas por conflitos tornam-se terrenos férteis para intervenções que misturam ajuda, influência e reposicionamento estratégico. O caso de Gaza não foge a esse padrão. Pelo contrário: ele o amplifica.
Quem senta à mesa — e quem fica fora
Os contornos do plano discutido nos bastidores envolvem:
- setores do governo dos Estados Unidos;
- aliados estratégicos no Oriente Médio;
- fundos de investimento internacionais;
- grandes construtoras e empresas de tecnologia.
O que chama atenção não é quem está presente — mas quem não está.
Não há indícios claros de participação direta:
- de lideranças civis palestinas independentes;
- de representantes comunitários locais;
- nem de organizações populares de Gaza no desenho inicial do projeto.
Isso cria um desequilíbrio fundamental: decisões estruturais sobre o futuro do território são pensadas sem representação proporcional de quem vive nele.
O dinheiro nunca é neutro
Reconstrução em escala bilionária nunca é apenas filantropia.
Ela cria dependência, alinhamento político e influência de longo prazo.
Ao condicionar investimentos à remodelação institucional e à segurança sob parâmetros externos, o financiamento se transforma em ferramenta de governança indireta.
Na prática, isso pode significar:
- controle sobre fluxos econômicos;
- influência sobre políticas urbanas e sociais;
- limitação da autonomia local;
- e redefinição silenciosa de prioridades.
Quando o dinheiro chega antes do consenso político, ele passa a ditar as regras.
O risco da “reconstrução sem retorno”
Um dos maiores temores entre especialistas em direito internacional humanitário é o chamado rebuilding without return — reconstruir sem garantir o retorno pleno da população original.
Isso ocorre quando:
- bairros são redesenhados;
- áreas são rezoneadas;
- preços sobem abruptamente;
- e antigos moradores não conseguem mais viver onde sempre viveram.
Não é expulsão formal.
É exclusão econômica progressiva.
No discurso, todos são bem-vindos.
Na prática, apenas quem pode pagar permanece.
Gaza como vitrine estratégica
Há também uma dimensão simbólica poderosa: transformar Gaza em “caso de sucesso” tecnológico permitiria reescrever a narrativa internacional.
Em vez de:
- ocupação,
- bloqueio,
- crise humanitária,
o território passaria a ser apresentado como:
- modelo de desenvolvimento,
- polo de inovação,
- símbolo de “superação”.
O problema é quando a vitrine não reflete a vida real atrás do vidro.
Segurança para quem?
Qualquer projeto desse porte exige um aparato de segurança robusto. A pergunta inevitável é:
segurança para proteger quem — e contra quem?
Se a estabilidade for garantida por forças externas ou por estruturas não legitimadas localmente, o risco é criar uma cidade altamente vigiada, funcional para negócios, mas politicamente frágil e socialmente tensa.
Cidades não vivem apenas de infraestrutura.
Elas vivem de pertencimento.
Reconstrução não é neutralidade
Toda reconstrução escolhe lados — mesmo quando diz não escolher.
Escolhe:
- quais bairros renascem primeiro;
- quais histórias são preservadas;
- quais memórias são apagadas;
- quais populações permanecem centrais e quais se tornam periféricas.
Em Gaza, essas escolhas carregam peso histórico. Ignorá-las não é neutralidade — é tomar partido do silêncio.
Conclusão: o futuro não pode ser imposto
A reconstrução de Gaza será inevitável.
Mas há uma diferença profunda entre reconstruir com um povo e reconstruir sobre um povo.
Sem participação real, sem soberania mínima, sem garantias de direito ao retorno e sem justiça histórica, qualquer plano corre o risco de se tornar mais um capítulo de uma longa sequência de decisões impostas de fora para dentro.
O futuro de Gaza não pode ser apenas eficiente, moderno ou lucrativo.
Ele precisa ser legítimo.
E legitimidade não se constrói com drones, resorts ou hubs digitais —
mas com voz, dignidade e autodeterminação.
.








