Uma banana presa com fita adesiva. Não como provocação estética, mas como retrato fiel de uma era.
O populismo cultural transformou a mediocridade em espetáculo e empurrou o talento para fora do palco.
A arte não morreu. Ela foi substituída.
Há algo profundamente simbólico nesta imagem. Uma fruta, presa com fita, exposta como obra. Não pelo que é, mas pelo que representa: a vitória da declaração sobre a construção, da aparência sobre a essência, do impacto sobre a linguagem.
Essa banana não é apenas uma obra. Ela é o retrato de um sistema cultural que aprendeu a confundir provocação com profundidade e conceito com conteúdo.
Vivemos um tempo em que a arte não precisa mais ser criada — basta ser anunciada.
O sequestro do espaço artístico
A cultura, que deveria ser território de risco, pesquisa e expressão, tornou-se vitrine de conveniência. O artista já não é avaliado pela obra, mas pela capacidade de se enquadrar. Pela narrativa pessoal. Pelo discurso correto. Pela estética que agrada ao mercado.
A técnica virou detalhe.
A linguagem virou acessório.
A obra virou pretexto.
Enquanto isso, artistas reais desaparecem em silêncio. Não por falta de talento, mas por excesso de obstáculos. Editais que exigem mais burocracia que criação. Projetos que premiam mais a forma do que o conteúdo. Espaços ocupados por quem sabe se vender, não por quem sabe criar.
A falsa democratização
Chamam isso de inclusão.
Mas inclusão sem critério é substituição.
Substitui-se a obra pelo rótulo.
Substitui-se o processo pelo discurso.
Substitui-se o artista pelo personagem.
O resultado é uma cultura cheia de palco e vazia de memória.
O público também é vítima
Uma sociedade alimentada por arte rasa aprende a sentir raso. Aprende a consumir, não a refletir. Aprende a repetir, não a questionar.
Quando tudo vira arte, nada permanece como arte.
E o que sobra é ruído.
Os talentos que nunca veremos
Os maiores artistas deste tempo talvez nunca sejam conhecidos. Estão trabalhando em empregos que não refletem sua vocação. Guardando obras que não terão espaço. Abandonando linguagens que poderiam transformar.
Não por incapacidade.
Mas por cansaço.
Cansaço de lutar contra um sistema que chama de oportunidade aquilo que, na prática, é privilégio.
Conclusão
A banana não é o problema.
Ela é apenas o espelho.
O problema é uma cultura que aprendeu a aplaudir o vazio enquanto ignora o talento. Que transforma exceção em regra. Que celebra o gesto fácil e descarta a construção silenciosa.
A arte não está em crise.
Ela está sendo substituída.
E toda vez que um artista real abandona sua linguagem, o mundo perde uma obra que jamais existirá.
Quando o vazio aprende a se chamar arte, o talento aprende a se calar.








