Quando o Brasil decidir mandar: quem ganha, quem perde e o preço do poder

O Brasil não é um país periférico que sonha com protagonismo.
É uma potência objetiva que optou por não exercer o poder que tem.

Território continental, recursos estratégicos, peso demográfico, posição geográfica privilegiada e capacidade diplomática reconhecida historicamente colocam o país no centro do tabuleiro global. Ainda assim, o Brasil atua como quem observa o jogo — não como quem define as regras.

A pergunta que se impõe não é se o Brasil pode liderar.
É o que acontece quando decidir fazê-lo.


O que muda quando o Brasil assume protagonismo

Assumir protagonismo não é discurso. É ruptura de padrão.

Significa:

  • Defender interesses nacionais mesmo sob pressão externa
  • Liderar a América do Sul politicamente, não apenas retoricamente
  • Negociar com grandes potências sem alinhamento automático
  • Transformar recursos estratégicos em poder de barganha
  • Aceitar o custo de desagradar atores internos e externos

Esse movimento reorganiza ganhos e perdas — dentro e fora do país.


Quem ganha

O próprio Brasil

O maior beneficiado é o Estado brasileiro.

Com protagonismo real, o país:

  • Aumenta sua autonomia decisória
  • Negocia acordos em condições menos assimétricas
  • Reduz dependência política e econômica
  • Recupera influência em fóruns globais

O Brasil deixa de ser “mercado” e volta a ser ator.


A América do Sul

Um Brasil líder cria estabilidade regional.

Ganha a região porque:

  • Conflitos tendem a ser mediados internamente
  • A integração energética e logística avança
  • A influência direta de potências externas diminui
  • Surge uma agenda sul-americana própria

Sem liderança regional, o continente é zona de disputa.
Com liderança, vira bloco político.


O Sul Global

Um Brasil protagonista fortalece a multipolaridade prática — não apenas discursiva.

Países emergentes ganham uma voz com:

  • Capacidade de negociação
  • Histórico diplomático
  • Credibilidade institucional

O Brasil volta a ser ponte entre mundos, não satélite de nenhum.


Quem perde

Potências que se beneficiam de um Brasil passivo

Um Brasil que manda impõe limites.

Perdem:

  • Países que exploram assimetrias comerciais
  • Atores que preferem negociações bilaterais em posição de força
  • Potências acostumadas a um Brasil previsível e reativo

Não é confronto direto.
É perda de conforto estratégico.


Interesses sobre recursos estratégicos

Soberania custa caro — para quem lucra com fragilidade.

Um Brasil protagonista tende a:

  • Endurecer regras sobre energia, minerais, biodiversidade
  • Exigir contrapartidas reais
  • Reduzir acordos extrativistas

Isso afeta empresas, fundos e cadeias globais habituadas ao acesso barato.


Elites internas dependentes do status quo

Talvez o ponto mais sensível.

Perdem espaço:

  • Grupos que lucram com dependência externa
  • Intermediários de interesses estrangeiros
  • Setores que preferem alinhamento automático a estratégia nacional

Protagonismo externo exige coragem interna.


O preço inevitável do protagonismo

Nenhuma potência ascende sem reação.

O Brasil enfrentaria:

  • Pressões diplomáticas
  • Retaliações comerciais pontuais
  • Ataques narrativos internacionais
  • Tentativas de isolamento político

Isso não é punição.
É o custo natural de mudar de posição no jogo.


A escolha real

O Brasil pode continuar:

  • Grande no mapa
  • Relevante no discurso
  • Secundário na decisão

Ou pode aceitar o atrito de liderar.

Não existe protagonismo sem risco.
Mas existe dependência sem futuro.


Conclusão

Quando o Brasil decidir mandar:

  • Ganha soberania
  • Ganha influência
  • Ganha horizonte estratégico

Quem perde são aqueles que sempre lucraram com sua hesitação.

No mundo que se desenha, a pergunta definitiva não é se o Brasil pode liderar.
É se está disposto a pagar o preço de ser potência.

.http://jornalfactual.com.br

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  • Inês Theodoro

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